domingo, 29 de janeiro de 2017

De volta ao hospital público (Parte 1)

Estive precisando dar plantões pelos corredores do hospital público em que terminei minha graduação, há nove anos. Os meus amigos da época, neste hospital, já são preceptores, médicos de referência, o assim chamado staff. Chefes de equipe, alguns cirurgiões e um quase neurocirurgião foram meus internos quando rodaram pelo posto de saúde em que fiz minha residência em medicina de família. Nas próximas três postagens vou descrever algumas cenas que testemunhei. 


***

Estive dando plantão na pior parte do hospital. É onde os pacientes, por falta de leito, ficam espalhados pelos corredores. Da minha época para cá, a fileira de macas no corredor quintuplicou. 

No primeiro dia em que lá estive, cheguei em casa sugado. As cenas de opróbrio pioraram, ou eu me tornei mais sensível. Há computadores espalhados em vários pontos para facilitar a evolução dos paciente independente da zona do corredor em que estejamos. De vez em quando, uma cadeira do computador some, pois algum acompanhante achou por bem tirá-la já que não havia nenhum médico usando. Justiça: antes nós, só durante a prescrição, do que eles, pelo dia inteiro, ficarem em pé.

Alguns comandos de ordem:

"Começar pelos não prescritos". Isso significa que há pacientes que ficam sem ser vistos por um, dois... quatro dias. Quatro foi o máximo que encontrei. 

"Priorizar quem está tomando antibiótico, para não falhar a tomada". E, então eu encontro um jovem cuja cultura isolou uma bactéria multirresistente. A enfermagem fica abismada: "como poderemos deixar ele isolado aqui?!"

Um diálogo apressado:

- Doutor, veja o meu paciente, pelo amor de Deus, faz um (ou dois, ou três) dias que ninguém vê! Desse jeito vou dar um escândalo!
- Senhora, esses três prontuários que tenho na mão também são de pacientes que não foram vistos e cujos acompanhantes me ameaçaram de escândalo. 

Três ou quatro médicos são responsáveis por ver os oitenta a cem pacientes da chamada observação I, com extras no corredor (quando são "apenas" sessenta, comemora-se).  Revesamo-nos, também, com o consultório, cujos pacientes que nos chegam são aqueles graves o suficiente para que o chefe de equipe não os mande procurar a UPA já da porta. O meu julgamento clínico, no consultório, acrescenta uma variável que não está nos livros de medicina interna: estaria esta pessoa com gravidade suficiente que supere o risco de ela ser assistida naquele corredor de hospital?

Não sei se existe alguma solução para este quadro em curto prazo. Não sei se existe solução para este quadro. Disseram-me que isso que descrevi não é privilégio de Fortaleza. Não queria estar na pele do responsável em melhorar isso. 




Seguem: 
Parte 2
Parte 3