terça-feira, 11 de julho de 2017

Preparação para Residência médica (o que não se ensina)

Não vou falar de matérias, mas das coisas do espírito. É que a medicina é grande demais, e em um texto não cabe tudo que cai no processo seletivo da residência. Das questões espirituais, cabe tão pouco, mas vale, ao menos, um alerta, que se ninguém fala, passa batido. 

É mais para quando estiver já dentro. Você tem que se desfazer de uma ilusão: "não espere assessoria absoluta". Falei sobre o medo na postagem passada. Lá pelas tantas disse que, mesmo em equipe, a solidão da decisão lhe acompanha. No final, é sempre você. Só que, pode ser que no começo e no meio do processo também se encontre sozinho. 

Participei da greve geral dos residentes ao ano de 2010. Testemunhei as discussões sobre "quem daria suporte para as emergências", e as réplicas de que "qualquer serviço deveria poder funcionar sem residentes". Fui um dos que compareceu ao Conselho Regional de Medicina para discutirmos a ética da nossa greve e do esvaziamento que faríamos aos serviços. Reivindicávamos não sermos mão-de-obra barata nos hospitais. 1. Melhorar as estruturas hospitalares; 2. Aumentar o suporte de preceptores; 3. Respeitar nossos limites (de hora, de sono, de necessidade de auxílio-moradia); 4. Aumentar nossa bolsa. Deu em pouca coisa o fuzuê inteiro.

Foram dois anos difíceis com péssima estrutura hospitalar, fraco suporte de preceptores, desrespeito aos nossos limites, bolsa exígua. Algumas vezes ouvi boatos de residentes que choravam, mas lamentação no repouso era o que não faltava. 

Então, o que quero lhe falar é que nunca na história da humanidade conseguimos conciliar a verdade social com a verdade da alma. Sempre o ideal ficou além e apenas nos serviu de ideia reguladora. Mas, serviu. 

Essa minha fala pode ser usada para dois propósitos opostos. Um ruim, que é uma má-fé. Gestores podem se apoderar dela e dizer: "viu, trabalhem e estudem, é uma virtude!". Um bom, que é uma virtude: "trabalhem e estudem, apesar de tudo". Essa dica é para a alma, não é para os gestores. 

Se fôssemos esperar pelos que assumem os altos cargos, não cresceríamos. Nossos principais movimentos de amadurecimento vêm de dentro. As pressões exteriores que querem nos esmagar (lembrem do sistema músculo-esquelético, da lei da Frank-Starlin) só podem nos fazer mais fortes, se suportarmos. A diferença é que enquanto a matéria esgarça, o espírito prossegue. 

Não encontrei um grande médico nessa jornada que não tenha gerado grandeza da miséria, da opressão, da dificuldade. Esse é o último sentido da alquimia. Fazer sublimar o metal menor de que somos feito no ouro do espírito.

Alguns se perdem no caminho. As doenças que afetam a auto-estima e a vontade são batalhas épicas à parte. Se remédios forem precisos, são bem-vindos. Temos de terminar essa vida tentando chegar no sonho, pouco importa se enfaixados. As cicatrizes sinalizam as lutas; os calos, o trabalho; a pele causticada e rugosa, não termos temido o sol. As flechas do inimigo são tantas que encobrem o céu? Ótimo, combateremos à sombra. 

O que quero lhes prevenir é da desistência, acreditando que não há mais jeito. É uma ilusão a ausência de saída. A única saída inescapável é a morte. Se não morremos ainda há fuga, é possível estratégias. Se tivermos morrido... bem, não estaríamos mais tendo essa conversa. 

Não nesse molde. 

sábado, 8 de julho de 2017

O medo de enfrentar a vida profissional

Estou com dois amigos próximos se formando em medicina. Depois de seis anos de preparação estão com medo de enfrentar as doenças que o trabalho traria. Conversava com minha esposa acerca do mesmo sentimento que nos tomava à época.

Não quero falar que vai passar. Não passa. Um professor emérito dizia: "paciente-livro-paciente". Mas, o medo não cessa. Adquire-se uma técnica de deslizar pela realidade. Alguns padrões de raciocínio e de conduta são enraizados. O medo sempre fica. 

Não podemos deixar de viver porque ele está presente. Ele nos protegeu de muitas quedas. Salvou-nos de grandes apuros. Protege-nos, mesmo, de ferir as pessoas com a exposição impensada de tudo o que tem dentro de nós. 

De fato, seu excesso, congela. Sentia vontade de não sair do sofá. É um momento de crise. Depois de seis anos de faculdade, apascentado pelos preceptores, um dia, você está sozinho. 

Cinquenta por cento das procuras ao médico poderiam ser resolvidas com atos simples, conhecimentos básicos, orientações, nortes (dia desses um senhor de oitenta anos aparece à minha esposa ignorando que beber refrigerante no café-da-manhã prejudica o controle da diabetes). Se esmiuçássemos, mesmo a estes cinquenta por cento, poderíamos fazer mais por eles munidos de conhecimento, experiência e tempo. A rotina não vai permitir se aprofundar na consulta. Mas, a rotina também salva. Os padrões, os algoritmos, os protocolos, os manuais limitam a compreensão de cada caso, mas permitem o início do acolhimento. 

Nessa época de redes, as hiperconexões vem permitindo a resolução de dúvidas cotidianas à beira da mesa que antes levaríamos para casa a fim de estudar e dar uma resposta daqui a uma semana, um mês. O medo se dilui na rede. A pesca aos amigos já não é crime, mas imperativo. 

O que mais me salvou depois de formado foram os amigos que formei. E isso nem estava no currículo: aprofundar amizades. Eles acolhiam minhas dúvidas como se fossem deles. Por vezes, sentia-me legião ao lado do paciente. Um destes amigos, que sempre foi meio bruto, respondeu tudo o que questionei. Era o que melhor sabia daquilo, e que melhor poderia me explicar. Pedi desculpas pelo incômodo, no que me devolveu: "Por favor, você não sabe a importância que tem para mim lhe ajudar."

Todavia, metade das vezes estará sozinho. E mesmo no sentimento de equipe, cada gesto seu é um protagonismo solitário. Um paciente está no primeiro andar, o seu parceiro, no térreo. Há uma intercorrência ao seu lado. Ao lado dele, também. É o momento de acreditar em si, e naqueles seis anos. O tempo será seu mestre, e o giro da terra provoca as estações. Às vezes está sereno, outras, temporal. Algumas doenças revisitam a cidade, abarrotam as instituições, prejudicam a todos.

Alguns não suportam a urgência dos males, e buscam se resguardar na meditação da clínica. Não tem como. A vida anda de montanha russa. Cedo ou tarde o que é imperioso e inadiável lhe cai nos braços. 

No mais, foi gratificante, ao início, ter pacientes entendendo meu raciocínio lento (leia-se: cauteloso) e dizendo: "ele demora, mas é bom!". Ou ainda: "me disseram que sua consulta é psicológica". Seja lá o que isso quer dizer.

Aqui pelo Ceará, porque as engrenagens do sistema de saúde ainda engatinham, nem tudo o que você sabe poderá ser colocado em prática. Dormir com casos mal resolvidos na consciência, boa parte será porque não houve como os resolver. Estava além de suas forças. Importa, pelo menos, tê-las empregado conforme podia. 

Não saia de seu psicólogo, se o gasto com a família que formar ainda o permitir. Sair com os amigos para sempre e inevitavelmente falar dos casos alivia um pouco, mas geralmente não é lugar para chorar. 

Um pensador de que gosto muito falava que "cinco, seis, sete anos são necessários para formar um médico medíocre, e a vida, um sábio." Medíocre, no sentido de mediano. Sábio seria no sentido de suficiente. Eu, hoje, interpreto como sábio no sentido de consciente. Consciente da condição humana, da nossa fragilidade, do nosso desequilíbrio irremediável, irredutível, de que nunca teremos o último remédio, a última resposta. Daí, o medo sempre espreitar. Contudo, na sabedoria, ele não vai ser mais um sentimento temido, mas um irmão. Velhos, sentaremos com ele num balanço, acariciando os cabelos de quem amamos, sabendo que pode partir logo mais. Ter consciência da nossa impotência não nos redime de lutar, nem da nossa finitude, de viver. 

Sejam bem-vindos ao corpo místico hipocrático.