sábado, 16 de setembro de 2017

Antes de medicar, conhecer o lugar

Amigo,

Você queria falar comigo sobre atenção primária. É que presenciou meu discurso de como me converti a esse mundo na faculdade, mas também testemunhou as reclamações contra o cotidiano que nos esmaga diuturnamente nos ambulatórios de lá. 

A conversa vai ser longa. Estarei lhe enviando cartas. Vou aproveitar este momento de reencontro com a medicina de família, agora que assumi papel de supervisor de médicos que estão no interior do Ceará. É um jeito diferente de olhar o que já fiz, vou olhar do alto.  

A primeira viagem que fiz, tinha que me encontrar com cada médico, mas queria conhecer o lugar. Se a família e o emprego principal me desobrigassem, passaria uma semana rondando, ouvindo as pessoas, fotografando as belezas, o normal e a feiúra dos cantos. Sentaria à pracinha no final da tarde para passear e aqui e ali escutar as conversas jogadas fora. Conheceria as iguarias da região, o pulso do comércio, o esforço da agricultura e da criação de gado, visitaria os cartões postais, embrenhar-me-ia na vegetação tentando sentir os espíritos elementais, subiria ao alto do serrote para ver o quanto tudo o que vi e ouvi era pequeno e parte de algo maior. Só então eu desceria para os doentes. 

Talvez daria para a equipe me reservar um canto no carro das visitas para os debilitados que não podem ir à unidade de saúde. Em cada casa, não sendo o médico, bisbilhotaria a arquitetura, a decoração, a simbologia da vida espiritual e as fotos das recordações. Nos tempos vagos da anamnese dos médicos, aproveitaria para perguntar algo da pessoa mesma, que não fosse dor, nem desespero. 

Sentir no corpo o que é estar dia e noite no lugar, a distância ao trabalho, o ritmo da vida, o silêncio da noite, como o vento se move quando todas as portas estão fechadas. 

Se a família e o emprego principal me desobrigassem por completo, tomaria um ano para entender como as festas modificam a cidade, como se prepara, como se despede delas. Como o ano nasce, como ele vem à pino em junho, como ele morre ao comemorar o nascimento de Cristo. Conhecer os sacerdotes do lugar, suas ladainhas, o movimento dos fiéis em busca de construir uma vida comunitária em aliança com alguma narrativa cósmica. O desafio diário de cuidar da transcendência tendo a imanência do ronco da barriga para acalmar.   

Só depois buscaria as estatísticas de doenças, os remédios e os instrumentos disponíveis para combatê-las, a evolução histórica desta luta nos último cinco anos, as condições de atendimento à população nas diversas unidades de saúde. Testemunhar algumas consultas para ver como as pessoas confessam suas dores.

Como essa liberdade não é possível, apenas um centésimo do terceiro parágrafo e um terço do penúltimo é que pude realizar. Tenho mais algum tempo por lá, quem sabe? 

sábado, 9 de setembro de 2017

Algumas pontuações pedagógicas em diálogo com a educação popular ou Educação para o Espírito

Aos alunos do segundo semestre da faculdade de medicina, estamos discutindo as melhores formas de abordar as pessoas para lhes ensinar algo que as engrandeça, fazendo somar os conhecimentos que trazemos das ciências da saúde. Se trata de ensinar formas de educação popular. 

A forma de educação mais conhecida é a tradicional ou professoral, em que o mestre se posta acima dos espectadores, transmitindo-lhes uma verdade doutoral. Geralmente é útil para platéias que já tem certa experiência ou identificação emocional com o conteúdo. Uma amiga relatou ter passado quatro horas escutando uma palestra sobre budismo que realmente a elevou. Os indivíduos propensos a esta imersão no mar de palavras do outro são aqueles que já vêm nadando por estas águas há um tempo, em busca aqui e ali de algum porto seguro que tenha um navegador experiente para lhes contar histórias de além-mar. 

A outra forma de educação que vem ganhando espaço nas últimas décadas, que predomina em quase toda nossa formação, é a do estímulo-recompensa, ou treinamento. É o que se faz quando se dá dez ou A+ para um aluno que cumpriu certa etapa a contento. É boa para formar hábitos e sedimentar patamares de conforto, mas raramente permite mergulhos mais profundos. 

Para mergulhar é preciso a virtude de arriscar-se, de enfrentar abismos. É preciso, ainda mais, estar preparado para as feridas do caminho. Só uma motivação para além das recompensas menores pode propiciar essa empreitada. Visa-se um horizonte esplêndido cujo percurso pode ser recheado de desafios terríveis, até mesmo de vários motivos de desistência. É (quase?) uma questão de fé persistir neste aprendizado. 

Por último, uma forma de educação muito querida dos movimentos populares e dos condutores de terapias de grupo é a de construção coletiva do saber ou dos círculos de cultura freireanos. O círculo é o modelo das relações sem arestas de poder, buscando-se ativamente despertar a força e a verdade de cada uma das vozes que compõem o grupo. O problema maior que se origina deste tipo de pedagogia, a que deram pra chamar de pedagogia do oprimido (das vozes tradicionalmente reprimidas), é como agregar conhecimentos que sejam exteriores ao círculo de cultura.

Quando nos deparamos com uma obra clássica que sobreviveu à corrosão do tempo, ela nos fala de verdades humanas que reverberam em nossa alma. Muitas vezes é preciso esforço para sair da sua própria ilha, percorrer as realidades inéditas que esta obra trás, para só então conseguir entendê-la. É preciso, muitas vezes, negar a si mesmo, para só depois se reencontrar em um lugar mais alto e mais profundo de si. 

Se ficamos girando em torno do respeito das verdades do círculo que se formou para "produzir conhecimento", muitas vezes estagnamos apenas no que este círculo é capaz. Cria-se um sentimento de tribo e um conjunto de defesas para proteger as relíquias culturais do povo. 

Há alguns conhecimentos, porém, que não são de povo algum, porque são de todos. Por vezes violentam nossa própria forma de enxergar a realidade, arrebatando-nos. Mesmo as comunidades tradicionais, tão protegidas pelos círculos de cultura, sabiam disso. Daí a figura dos xamãs, que davam norte aos espíritos do lugar. Seus êxtases traziam revelações de um mundo das ideias, quiçá de um mundo dos princípios, fazia sombra na comunidade, provocava genuflexões espontâneas.

A teoria da pedagogia do oprimido busca desconstruir qualquer tradição xamânica, qualquer conhecimento que seja passado por alguém que se intitule portador da verdade, representante da sabedoria que se ergue em um indivíduo singular sobre o coletivo. 

É verdade que o charlatanismo se vale dessas vestes para subjugar os ingênuos. Mas, nem tudo é charlatanismo. Junto com a briga contra estas classes nobre-sacerdotais, vai-se o assassinato de verdadeiros mestres espirituais, toda sorte de profetas e conselheiros que eram o pivô da harmonia da comunidade. Aquele que estava no meio-termo entre a alma humana e o divino, estes dois polos que a muito custo se equilibram, ao custo da vida, ao lucro da morte. 

Os círculos de cultura freireano costumam ser inimigos dos que sobem em palco e vomitam conhecimento, isto é, da pedagogia tradicional, a que chamam de transmissão bancária. São reticentes a respeito dos homens carismáticos, cuja liderança é capaz de arrastar multidões com um discurso de horas.

Assim como expus onde as outras pedagogias eram boas, faço o mesmo sobre a do oprimido. Proliferam onde há muitas vozes caladas por algum desmando crônico, alguma ditadura lacônica, que apenas edita ordens de uma cátedra. Feito o magma da Terra, as pessoas querem se expressar. Todavia, o que acho que a pedagogia do oprimido não deu conta de captar ainda é quando as vozes caladas são às do alto, que querem brotar na possessão dos corpos. O divino que se manifesta entre pescadores e carpinteiros é a próxima liberdade que devemos respeitar. 

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

História de Vida e Medicina: em busca da possibilidade de diálogo

Todo semestre sou convidado para dar uma aula não usual à medicina: história de vida. Antes de conviver com minha orientadora de mestrado da educação nem sabia que isso era pauta de pesquisa. Hoje, a vejo como a chave para algumas portas que tento abrir na ciência dura. 

História de vida, ou biografização, ou narrativas de si, é algo que posso explicar de forma bem simples: o ato de reconstruir sua vida através das suas próprias palavras em determinado momento. É você contar como viveu. Quem estuda os discursos elaborados com esse propósito percebeu  várias particularidades que estão se amontoando em ciência, forjando capítulos nas ciências humanas. Uma das particularidades mais conflitantes com o que entendemos de história para a medicina é a liberdade da pessoa de ressignificar o que viveu através das palavras do agora. Para a medicina o nome disso é mentira, e dribla a possibilidade diagnóstica. 

Dessa forma, como sei bem onde piso, começo minha aula desafiando os estudantes em um caso clínico. A história (da doença)  da paciente vai se revelando na medida em que eles vão conseguindo decifrar as charadas dos sinais e sintomas. Depois do furor inicial, do diagnóstico mais provável encontrado, que era o gabarito que estava na minha cabeça quando formulei o caso, os levo para entenderem a diferença entre o que seria a história de um paciente e a história de vida contada por uma pessoa. Basicamente os faço perceber que aquela busca uma verdade diagnóstica, o sujeito condutor da construção sã desta verdade é o médico (às vezes é preciso estancar a verborragia do paciente); já na história de vida da pessoa, é ela que é o sujeito, e a verdade que importa é a que ela está conseguindo construir agora. 

Perceba que aqui se chocam exatamente as duas epistemes das ciências irmãs e briguentas, grosso modo, a verdade geométrica, que independeria das variações da realidade, e a interpretação pessoal do vivido, que pega a realidade como argamassa de uma narrativa. 

Para que, na medicina, a história de vida tivesse efeito de verdade, eu teria que provar ao médico que toda aquela narrativa aponta para a doença como entidade construída, que a doença não é um fato biológico independente que se apoderou do indivíduo forjando sintomas, mas é uma construção de uma caminhada. 

Quando falo isso, parece um discurso sedutor para os humanistas. Tal visão respeitaria a singularidade e a potência dos atores sociais para moldar o entorno. Mas, sinto estar falando de uma abstração incognoscível para os epidemiologistas que dominam a nossa forma de fazer ciência, isto é, baseada em evidências. Porque o que o epidemiologista ou o pesquisador clínico busca é exatamente o suco da realidade que não se altera com os acidentes de percurso provocados pela intervenção humana. Daí eles buscarem as fórmulas matemáticas para lhes ajudaram nesta higienização das teses. Seguindo essa esteira de produção de entidades nosológicas, acabam por encontrar sinais e sintomas consensuais em vários indivíduos em tal magnitude que podemos dizer que, na verdade, não sofrem eles do peso da própria vida, mas de uma doença comum a todos, a partir da qual podemos formular protocolos de pesquisa a fim de entender o melhor tratamento para - a doença. 

Não é fácil encontrar o campo em que estas duas vertentes vão se harmonizar da forma como a medicina ocidental oficial está cristalizada, então, como itinerário de pesquisa e de engrandecimento pessoal, estou indo atrás do estudo de outras racionalidades médicas que permitem vislumbrar o que seria a ponte entre estas formas de enxergar as histórias. Como a história de vida pode desaguar na história da doença?

Três formas já se me apresentam: o vitalismo homeopático, a antropologia da medicina tradicional chinesa, a perspectiva de causa-e-efeito do reencarnacionismo espírita. Desenvolve-los-ei em outros momentos. 

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Querendo sair da faculdade logo ao primeiro dia

A moça chegou para mim com um desejo nos olhos, assim interpretei. Queria que eu abençoasse sua vontade de não permanecer na medicina.

Falou-me de ser muito boa em matemática e não gostar de biologia. Lembrei de um grande amigo que quis me convencer a permanecer na faculdade porque fora dela eu poderia ser isso ou aquilo, mas não médico. Dentro dela eu seria médico e depois poderia ser isso ou aquilo. Na verdade o argumento é fraco, reconheço. Ele não me convenceu pelo argumento, mas porque foi uma pessoa que esteve ao meu lado me incentivando todo tempo, ele e sua esposa, amigos adoráveis.

Jean-Paul Sartre achava que o indivíduo constrói sua história e que quando, por exemplo, ele vai perguntar o que fazer a alguém, já vai tendencioso para aquele que acha que vai endossar a escolha que esconde. Se isso não for uma lei universal, pelo menos parecia ser a verdade daquela moça.

O que alguém quer me falar quando diz que não gosta de biologia, mas ama matemática ao primeiro dia de aula de medicina, com lágrima nos olhos, que a mãe aconselhou que terminasse pelo menos o primeiro semestre, mas que achava que não adiantaria de muita coisa, etc?

Ela veio para mim porque sou quase da idade dela, tenho barba desgrenhada, não uso jaleco, não tenho expressão professoral. Creio que eu era o padre perfeito para a perdoar. E talvez fosse. Não porque acho que ela não deva ficar na medicina, mas porque acho que isso não é o que importa. Apanhei à faculdade demais para reconhecer isso. A grandeza desta vida é a formação da personalidade, o diamante que restará ao final do embate diário com as pressões sociais e os anseios que a alma traz.

A gente começa se conhecendo. O corpo parece uma coisa indomável sob o domínio do bebê, depois nos apoderamos dele como instrumento. Encontramos o nosso lugar em nós mesmos, depois entre os nossos, para então sermos arremessados para os estranhos. Querem que contribuamos com o projeto humano. Esse é o momento da escolha da profissão. Há lugar ao sol para toda ocupação, e todas elas geram vida.

Estou falando a partir de uma trajetória que flutuava muito na decisão de ser médico, cercado por fortes pressões familiares. Acabou que deu certo. Há quem não terá o mesmo êxito se quiser seguir o mesmo caminho. É que guardava em mim um diálogo mal feito com papai que precisava ser resolvido. Conto isso em outro lugar. Quando resolvi, passei a ser o médico que realmente queria ser, e, coisa risível, que meu pai também queria. Só que ele não viveu até me ver assim. Morreu um ano e meio antes de me formar. Fundi, enfim, minha vontade à dele, sem arrependimento, com carinho. Enterrei ele em mim, morreu junto o filho, floresceu o homem


O ápice da formação da personalidade é se reconhcer parte de uma história infinita, nadando numa correnteza muito especial, e - momento de êxtase - ver o sentido de tudo isso nos planos de Deus, ou no que quer que valha como ordem transcendente ali logo ao final. Há quem não chegue aí. Um dia pretendo chegar. Espero que essa moça consiga também fazer desaguar o sangue dela onde o coração puder pulsar com mais vigor. Independente da profissão, o movimento é o mesmo.

terça-feira, 11 de julho de 2017

Preparação para Residência médica (o que não se ensina)

Não vou falar de matérias, mas das coisas do espírito. É que a medicina é grande demais, e em um texto não cabe tudo que cai no processo seletivo da residência. Das questões espirituais, cabe tão pouco, mas vale, ao menos, um alerta, que se ninguém fala, passa batido. 

É mais para quando estiver já dentro. Você tem que se desfazer de uma ilusão: "não espere assessoria absoluta". Falei sobre o medo na postagem passada. Lá pelas tantas disse que, mesmo em equipe, a solidão da decisão lhe acompanha. No final, é sempre você. Só que, pode ser que no começo e no meio do processo também se encontre sozinho. 

Participei da greve geral dos residentes ao ano de 2010. Testemunhei as discussões sobre "quem daria suporte para as emergências", e as réplicas de que "qualquer serviço deveria poder funcionar sem residentes". Fui um dos que compareceu ao Conselho Regional de Medicina para discutirmos a ética da nossa greve e do esvaziamento que faríamos aos serviços. Reivindicávamos não sermos mão-de-obra barata nos hospitais. 1. Melhorar as estruturas hospitalares; 2. Aumentar o suporte de preceptores; 3. Respeitar nossos limites (de hora, de sono, de necessidade de auxílio-moradia); 4. Aumentar nossa bolsa. Deu em pouca coisa o fuzuê inteiro.

Foram dois anos difíceis com péssima estrutura hospitalar, fraco suporte de preceptores, desrespeito aos nossos limites, bolsa exígua. Algumas vezes ouvi boatos de residentes que choravam, mas lamentação no repouso era o que não faltava. 

Então, o que quero lhe falar é que nunca na história da humanidade conseguimos conciliar a verdade social com a verdade da alma. Sempre o ideal ficou além e apenas nos serviu de ideia reguladora. Mas, serviu. 

Essa minha fala pode ser usada para dois propósitos opostos. Um ruim, que é uma má-fé. Gestores podem se apoderar dela e dizer: "viu, trabalhem e estudem, é uma virtude!". Um bom, que é uma virtude: "trabalhem e estudem, apesar de tudo". Essa dica é para a alma, não é para os gestores. 

Se fôssemos esperar pelos que assumem os altos cargos, não cresceríamos. Nossos principais movimentos de amadurecimento vêm de dentro. As pressões exteriores que querem nos esmagar (lembrem do sistema músculo-esquelético, da lei da Frank-Starlin) só podem nos fazer mais fortes, se suportarmos. A diferença é que enquanto a matéria esgarça, o espírito prossegue. 

Não encontrei um grande médico nessa jornada que não tenha gerado grandeza da miséria, da opressão, da dificuldade. Esse é o último sentido da alquimia. Fazer sublimar o metal menor de que somos feito no ouro do espírito.

Alguns se perdem no caminho. As doenças que afetam a auto-estima e a vontade são batalhas épicas à parte. Se remédios forem precisos, são bem-vindos. Temos de terminar essa vida tentando chegar no sonho, pouco importa se enfaixados. As cicatrizes sinalizam as lutas; os calos, o trabalho; a pele causticada e rugosa, não termos temido o sol. As flechas do inimigo são tantas que encobrem o céu? Ótimo, combateremos à sombra. 

O que quero lhes prevenir é da desistência, acreditando que não há mais jeito. É uma ilusão a ausência de saída. A única saída inescapável é a morte. Se não morremos ainda há fuga, é possível estratégias. Se tivermos morrido... bem, não estaríamos mais tendo essa conversa. 

Não nesse molde. 

sábado, 8 de julho de 2017

O medo de enfrentar a vida profissional

Estou com dois amigos próximos se formando em medicina. Depois de seis anos de preparação estão com medo de enfrentar as doenças que o trabalho traria. Conversava com minha esposa acerca do mesmo sentimento que nos tomava à época.

Não quero falar que vai passar. Não passa. Um professor emérito dizia: "paciente-livro-paciente". Mas, o medo não cessa. Adquire-se uma técnica de deslizar pela realidade. Alguns padrões de raciocínio e de conduta são enraizados. O medo sempre fica. 

Não podemos deixar de viver porque ele está presente. Ele nos protegeu de muitas quedas. Salvou-nos de grandes apuros. Protege-nos, mesmo, de ferir as pessoas com a exposição impensada de tudo o que tem dentro de nós. 

De fato, seu excesso, congela. Sentia vontade de não sair do sofá. É um momento de crise. Depois de seis anos de faculdade, apascentado pelos preceptores, um dia, você está sozinho. 

Cinquenta por cento das procuras ao médico poderiam ser resolvidas com atos simples, conhecimentos básicos, orientações, nortes (dia desses um senhor de oitenta anos aparece à minha esposa ignorando que beber refrigerante no café-da-manhã prejudica o controle da diabetes). Se esmiuçássemos, mesmo a estes cinquenta por cento, poderíamos fazer mais por eles munidos de conhecimento, experiência e tempo. A rotina não vai permitir se aprofundar na consulta. Mas, a rotina também salva. Os padrões, os algoritmos, os protocolos, os manuais limitam a compreensão de cada caso, mas permitem o início do acolhimento. 

Nessa época de redes, as hiperconexões vem permitindo a resolução de dúvidas cotidianas à beira da mesa que antes levaríamos para casa a fim de estudar e dar uma resposta daqui a uma semana, um mês. O medo se dilui na rede. A pesca aos amigos já não é crime, mas imperativo. 

O que mais me salvou depois de formado foram os amigos que formei. E isso nem estava no currículo: aprofundar amizades. Eles acolhiam minhas dúvidas como se fossem deles. Por vezes, sentia-me legião ao lado do paciente. Um destes amigos, que sempre foi meio bruto, respondeu tudo o que questionei. Era o que melhor sabia daquilo, e que melhor poderia me explicar. Pedi desculpas pelo incômodo, no que me devolveu: "Por favor, você não sabe a importância que tem para mim lhe ajudar."

Todavia, metade das vezes estará sozinho. E mesmo no sentimento de equipe, cada gesto seu é um protagonismo solitário. Um paciente está no primeiro andar, o seu parceiro, no térreo. Há uma intercorrência ao seu lado. Ao lado dele, também. É o momento de acreditar em si, e naqueles seis anos. O tempo será seu mestre, e o giro da terra provoca as estações. Às vezes está sereno, outras, temporal. Algumas doenças revisitam a cidade, abarrotam as instituições, prejudicam a todos.

Alguns não suportam a urgência dos males, e buscam se resguardar na meditação da clínica. Não tem como. A vida anda de montanha russa. Cedo ou tarde o que é imperioso e inadiável lhe cai nos braços. 

No mais, foi gratificante, ao início, ter pacientes entendendo meu raciocínio lento (leia-se: cauteloso) e dizendo: "ele demora, mas é bom!". Ou ainda: "me disseram que sua consulta é psicológica". Seja lá o que isso quer dizer.

Aqui pelo Ceará, porque as engrenagens do sistema de saúde ainda engatinham, nem tudo o que você sabe poderá ser colocado em prática. Dormir com casos mal resolvidos na consciência, boa parte será porque não houve como os resolver. Estava além de suas forças. Importa, pelo menos, tê-las empregado conforme podia. 

Não saia de seu psicólogo, se o gasto com a família que formar ainda o permitir. Sair com os amigos para sempre e inevitavelmente falar dos casos alivia um pouco, mas geralmente não é lugar para chorar. 

Um pensador de que gosto muito falava que "cinco, seis, sete anos são necessários para formar um médico medíocre, e a vida, um sábio." Medíocre, no sentido de mediano. Sábio seria no sentido de suficiente. Eu, hoje, interpreto como sábio no sentido de consciente. Consciente da condição humana, da nossa fragilidade, do nosso desequilíbrio irremediável, irredutível, de que nunca teremos o último remédio, a última resposta. Daí, o medo sempre espreitar. Contudo, na sabedoria, ele não vai ser mais um sentimento temido, mas um irmão. Velhos, sentaremos com ele num balanço, acariciando os cabelos de quem amamos, sabendo que pode partir logo mais. Ter consciência da nossa impotência não nos redime de lutar, nem da nossa finitude, de viver. 

Sejam bem-vindos ao corpo místico hipocrático.

sábado, 13 de maio de 2017

Uma homenagem singular

Fui homenageado por oito alunos em um evento coletivo da faculdade. Não havia espaço, mas havia uma brecha para ela acontecer. Foi algo improvisado no roteiro da cerimônia. A mestre de cerimônia não estava sabendo. Mas, não discordou. Ninguém se impôs ativamente. O público anuiu com aplausos e risos. 

Deram-me um oscar de brinquedo por ser "O melhor tutor", só que não houve votação do efetivo de alunos do semestre, se não apenas a concordância unânime dos oitos alunos a que venho me dedicando nestes últimos três meses. Fui, portanto, o melhor tutor deles, destes oito alunos. Detalhe que nunca tiveram outro tutor. Fui, pois, o melhor e único tutor. Isso não diminui o valor da homenagem. Poderia ter sido o único e o nada, ou apenas mais um professor na vida deles. O que me fez ser elevado a alguma categoria especial?

Alguns motivos me vem em mente. Poderia ser pela inteligência, e a partilha ativa, em momentos muito particulares, dos conhecimentos gerais sobre humanidades médicas que venho amealhando nesta década de prática. Eu daria, de zero a dez, um valor cinco para este motivo. Os motivos de valores mais altos, acredito, residem na virtude que anima estas duas cenas:

[PRIMEIRA CENA] No meio de um feedback, a aluna me coloca contra a parede questionando minha expertise de tutor. Ela expõe alguns segundos de razões que provocam certa aflição ao coração, mas o peito aberto, a face acolhedora, o espírito não derrotado. Digo derrotado, uma terminologia de briga, mas o duelo que há tempos me proponho não é contra alunos ou outras pessoas que não eu. Ciente desta inerente falibilidade, acolho as críticas como tijolos da construção de mim. Onde elas podem se adaptar (no sentido piagetiano) no edifícil que já construí? A atitude de abertura ao novo que demonstrei despertou respeito no grupo. Virtude democrática? Em tempos de guerra, a fortaleza e a coragem seriam as virtudes que fariam sombra benfazeja no exército liderado. Em tempos de aprendizado, a abertura ao novo

[SEGUNDA CENA] O aluno não estava em um dia bom. As emoções estavam a flor da pele, talvez. Chamo a atenção dele por coisa boba, e de forma um tanto enérgica (ríspida?). Apenas que cuidasse para não tropeçar no fio do retroprojetor pois estava frouxo. Ele deixa escapar um palavrão contra mim. Todos os ouvidos ouvem. Senso comum que aquela reação não poderia passar incólume. Punição? Não. Diálogo! 

- [Com serenidade] Desenvolva o sentido de [palavrão]? 
- Não, mah! Deixe pra lá!
- Sério, sem problema. Deve haver algo por trás desta sua manifestação. Importa que eu saiba para crescermos. 

No dia anterior havia assistido uma palestra sobre a cultura hebraica de povos peregrinos no deserto. A expositora dizia que para um povo peregrino, a bagagem mais pesada era a mágoa. Então, ao final do dia, sob a primeira sombra, quem estivesse com questões mal resolvidas, era a hora de resolvê-las, e em frente de toda a comunidade. O dia não poderia raiar sem a concórdia. Contei este detalhe cultural para eles e completei:

- Então, estamos em peregrinação. E teremos ainda muitos sóis pela frente. Preciso que não carreguemos essa mágoa. 
- Não, mah! Foi mal! Eu gosto de você, sério. É que acho que você me persegue. 

Perguntei aos demais se sentiam o mesmo. Discordaram. Debatemos um pouco as relações do grupo. Acalmamos o ânimo. Prosseguimos a caminhada. 

Desde, então, em vez de momentos de tensão, há um clima de amizade que reina no lugar. Poderia dar um oscar para eles de "melhor turma de grupo tutorial". Também obedeceria todas as singularidades que descrevi sobre minha homenagem. É a minha primeira e única turma, o que não diminuiria a predileção. Não são assim as amizades? Podemos ter tantos melhores amigos quanto quisermos. Não é uma competição. É a vivência de uma relação singular. É, na verdade, a melhor relação que estamos conseguindo construir. Eis o significado desse "melhor". Alguns professores mantém-se em guarda contra os alunos, pois podem nos dar rasteiras. Os amigos, também, os grandes amores ainda mais. Não é motivo para não tê-los, e ainda menos, não celebrá-los.   

sábado, 22 de abril de 2017

Uma brecha essencial do raciocínio médico moderno

Introdução

Estou lendo uma reflexão de Luc Ferry sobre as implicações políticas das "Filosofias da História", particularmente a do idealismo alemão. A motivação que o levou a escrever tal ensaio, foi a da suspeita de que os totalitarismos europeus tiveram sua origem intelectual em filosofias da história de base hegeliana (acusação feita por Arendt, R. Aron, Castoriadis), cujo hiperracionalismo fazia com que a verdade fosse assumida como tão imediatamente palpável ao ponto de ser o valor principal pela qual se deveria lutar. A democracia, de outro modo, coloca a verdade política ou como inalcançável ou como impossível de se chegar se não pelo diálogo dos contrários. Nos totalitarismos, um único partido estará com a razão, e sua missão é fazer de todo o possível para assumir o poder, já que a verdade está em seu bolso. Na democracia, o pluripartidarismo é imprescindível, e os diálogos de construção das possibilidades do futuro, a única saída para os problemas de hoje.

Então, vislumbrei que essa crítica pode ser feita para o universo médico. A palavra história nos dá o ponto de encontro das temáticas.

Não conseguirei aqui desenvolver com tanta proficiência o que Ferry o fez no seu estudo sobre as Filosofias da História. Mesmo ele percebeu que havia tocado em um ponto tão crucial que precisaria de muito mais fôlego para dissecá-lo a contento. E, ainda assim, fez um trabalho ímpar. Contudo, eu devo deixar nesta página o que seriam nortes para o fôlego que algum dia eu posso ou outro possa ter para desenvolver a temática, que acredito urgente para a medicina.


Pontos norteadores


1. A crítica maior reside sobre a construção de uma filosofia da história que entende haver um Espírito Absoluto ou Razão que encarna de tal modo na história humana que a deixa passível de ser compreendida nas leis que embasam sua dinâmica. Isso ocorre em tal magnitude que, desvendada estas leis, a história se desnuda, tanto na compreensão do seu passado, quanto na clareza do presente, quanto ainda na possibilidade de tomar as rédeas do futuro. 

2. Essa visão cega o historiador para as surpresas que o presente pode dar. Reside sobre uma falácia da generalização e do reducionismo, para a qual basta um exemplo maior que a contradiga para fazê-la cair por terra. Reside ainda sobre uma ilusão da metafísica da razão que eleva esse atributo humano a um patamar de onisciência, como se o olho de carne pudesse enxergar o eterno, fotografá-lo e entender sua essência para sempre.

3. Embora a filosofia da história de base hegeliana tenha se pretendido, por exemplo, nas mãos de Marx, científica, ela destrói o exercício primeiro da ciência que é abertura para o novo, para o surpreendente, para aquilo que pode falsear a minha tese abrindo um campo inteiramente novo de pesquisa e perspectivas. Se eu, enfim, descobri as leis vigentes do universo, finda-se meu trabalho de busca, inicia-se meu imperativo de luta para fazer com que elas aconteçam. Quando na política acontece esse movimento: totalitarismo. Quando na ciência acontece esse movimento: uma ciência que serve ao totalitarismo. 

4. A medicina se funda sobre a história da doença do sujeito. Nenhum médico pode prescindir dela. E mesmo quando já não há mais sujeito animado, como é o caso do corpo morto ou da peça patológica, um mínimo de descrição história deve existir para direcionar o olhar do médico patologista para encontrar a razão da doença que se encarnou naquele corpo.

5. Existe uma tensão na história da doença do sujeito. Ela nasce destas duas palavras: doença e sujeito. A noção de doença participa da dureza do raciocínio biológico que flerta com as ciências da natureza, cujo exercício é o de encontrar padrões lógicos, e mesmo leis, que revelem o mecanismo de funcionamento a tal ponto de poder chancelar predições. O modelo é: "se isso estiver assim, então aquilo acontecerá". O conjunto de hipóteses que são assim formuladas, trabalhadas, testadas, validadas, forma um corpo de teorias tão denso e fechado que se cristaliza em um calhamaço a que podemos chamar doutrina. 

6. Quanto mais distante é, do homem, a natureza do objeto estudado, mais fácil é de acondicioná-lo em teorias que cumpram seu papel de predição de movimentos. Quanto mais próximo, todavia, mais escorregadio. É o caso do sujeito. O homem é o próprio sujeito. Estudar os movimentos do sujeito é ter que entrar no campo das ciências humanas, que cada vez mais tomam consciência da impossibilidade de projetar o exercício da predição das ciências da natureza para sua episteme, guardando, então, apenas o nobre mérito de compreender o que se passa. 

7. Estudar a doença do sujeito não é ter que prestar culto aos movimentos que acontecem no próprio sujeito? Como pode haver uma ciência da doença-que-acomete-o-sujeito sem o sujeito? O que ocorre é um exercício de dissecção da realidade em que aos poucos se vai desfazendo os laços infinitos que atrelam a doença ao sujeito até que se tenha aquela em estado puro para análise dela só. Se isso faz com que se revele certa face da realidade, de outro modo é uma revelação de uma natureza desfigurada. 

8. A clínica, que é o exercício de entender o que se passa no doente por inteiro (isto é, binômio doença-sujeito, e há época de Hipócrates ainda havia o complexo doença-sujeito-cosmos), há muito foi contaminada com o separacionismo doença versus sujeito. Raciocinamos, hoje, assim: que doença é esta que está nesse indivíduo ao ponto de eu conseguir extrair dele o nome que possa entrar no algoritmo de tratamento adequado a este nome? Quando o mais honesto com a realidade seria dizer: que doente ele é? Ou ainda melhor: quem é este que adoece? 

9. Se eu encaro a história da doença sob os moldes do hiperracionalismo que busca um Espírito Absoluto ou uma Razão que esteja sulcando sua identidade no rastro da história do sujeito, meu exercício é de buscar uma verdade que irá me munir de autoridade tal que tornará meus atos sobre o sujeito imunes a qualquer censura. Um único partido para decidir o rumo da política do corpo a ser tratado. 

10. De outro modo, com a teoria da doença na mão, estarei prevenido contra qualquer milagre do Ser (expressão heideggeriana, adotada também por Arendt) que venha a brotar no sujeito. Milagres esses que, por definição, desbancam qualquer lei vigente. 

11. É um exemplo cotidiano o estudo de casos de pacientes onde as identidades deles, suas histórias de vida, são grandemente ignoradas, e iluminados são os pontos-chaves que fazem a junta médica reconhecer, como num jogo, a face da doença em cuja doutrina médica há um protocolo de intervenção para ela. O modelo infectológico de raciocínio, na busca pelo agente etiológico, com os sucessos de seus dias áureos dos primeiros antibióticos, tornou esse modelo de pensamento ainda mais potente.

12. Contra todo esse assentamento de bases do edifício da crítica que gostaria de erigir, a medicina baseada em evidência pode se insurgir dizendo: "contudo, funciona". Nos dias de hoje, um conjunto de evidências, não menos robustas, vem apontando que - principalmente no campo da psiquiatria, onde a doença se mistura ao sujeito no que consideramos, atualmente, o mais sagrado de seu ser - a eficácia dos medicamentos é repleta de controvérsias, vieses, metodologias de averiguação falhas. 

13. Não vamos ignorar que há casos, principalmente os agudos de novo, e não os crônicos agudizados, em que a doença parece recente e facilmente extirpável. Contudo, os crônico-degenerativos, que é o que vem acometendo as populações em envelhecimento, tornam o processo de adoecimento um complexo semelhante aos das doenças psiquiátricas: a doença mistura-se na forma de existir do sujeito. 

14. A medicina da doença pode dar conta das singularidades dos sujeitos? Não estaríamos exercendo, há séculos, uma medicina totalitária, submetendo-os, pelo suposto bem deles, a tratamentos hediondos que inserem em seus corpos efeitos colaterais mais devastadores do que a promessa de tratamento pode compensar? As pesquisas que mostram acréscimos de sobrevida não estariam negando a quantidade de Ser que estas pessoas tem? As sombras que o lendário Ulisses encontrou no Hades, em sua Odisséia, eram plenas de sobrevida, contudo, Aquiles, portador dessa imortalidade sombria lamenta que preferia ainda ser mortal e estar entre os seus cultivando suas terras. 

15. Claro que as pessoas não são dóceis para esta medicina. Procuram milagres. Muitos são os intermediários: não apenas santos, padres ou pastores, mas xamãs, cirurgias espirituais, sessões do descarrego, de desobsessão, possessões demoníacas, sangrias sagradas, alquimias, práticas corporais com fundo espiritual, práticas ditas bionergéticas, práticas comunitárias, etc. Qual o poder destas práticas de provocar milagres do Ser, enviesando por completo os resultados das pesquisas da medicina baseada em evidência? Não há ciência preparada para analisar estas práticas. Elas seguem conquistando os sofredores que silenciam a respeito delas para os médicos. São estes fenômenos silenciosos que são acolhidos no ventre do sujeito e gestados no ponto cego da ciência que fazem dela um dos pontos de vista mais ingênuos que já se firmou na humanidade para entender o próprio ser humano. 


16. O surgimento da ciência moderna, fazendo-nos crer que se tratava de um movimento contra a superstição dos outros tipos de busca de sentido da vida que já se havia empreendido na humanidade, faz-nos ver que ignorou pontos essenciais do ser humano que as outras abraçavam com maestria, haja vista, tudo o que toca no assunto: dos deuses, dos símbolos, dos totens, do sagrado, das múltiplas dimensões engolfando-se umas as outras, do mágico, do sombrio, do demoníaco, da possessão, dos arrebatamentos, dos êxtases, da clarividência, em uma palavra, do transcendente que copula com o imanente, de Urano sobre Gaia. 

17. Não é o caso de, capitulando de toda essa busca por respostas, considerar toda resposta possível. Mas sim, de buscar uma ciência (ou qualquer novo nome que queiramos dar a essa atitude humana) que assuma nossa impotência radical de entender a totalidade do Real, e aceite os milagres que dele brotam. É a primazia do estranhamento sem perder a vontade da ação. Como escapar da metafísica da razão totalizadora/totalizante e se inserir no reino do ente que se encontra a deriva no mar do Ser?

sexta-feira, 31 de março de 2017

Com a vida em jogo

Com a tireóide sacada do pescoço, os desastres continuam um ano depois. As paratireóides não querem funcionar direito. Olha que basta uma presente para suplantar todas as que se foram. No meu caso, tenho três das quatro, e, todavia, elas sentem falta da quarta.

Tenho feito suplementação dietética de cálcio, mas o último exame não mostrou resposta. É como se elas estivessem ainda, um ano depois!, atordoadas. E me deixa atordoado, também. Lá podia imaginar que um íon tão miserável seria tão importante no corpo! A fadiga quer dominar. No karatê, treinávamos andando com alguém nos segurando por uma faixa na cintura, a fim de adquirir força no centro corporal. Na natação, acoplávamos um paraquedas pequeno à cintura para nadar contra a resistência, adquirir força de braçada. Sem cálcio, mas tendo os hormônios tireoidianos e noradrenérgicos no nível normal, é como seguir a vida com essa resistência. 

A medicina ocidental oficial se tornou grande no diagnóstico. Ela descreve com maestria todos os sintomas e associa bem o conjunto sindrômico a um nome específico de uma entidade patológica abstrata qualquer, entre epônimos e radicais gregos. Ela é a rainha da taxonomia das doenças. Mas, está longe de saber nos devolver o equilíbrio. 

Após a suplementação do cálcio, não dando certo, terei de suplementar novo hormônio que pode me conduzir para o extremo oposto, a hipercalcemia, com risco de formação de pedras renais cuja dor é tida como das maiores que o corpo humano pode sofrer. Por mais que nossa tecnologia bioquímica consiga reproduzir os compostos humanos, nada se equipara ao mecanismo fino de autorregulação que o corpo consegue empreender, daí os riscos dos extremos, como se estivesse na vertigem de uma viagem em mar aberto.  

Por isso, depois de um ano e meio estudando homeopatia, estou colocando o pescoço em sua guilhotina. Os artigos de grandes revistas a condenam? Não acredito em artigos que não nos oferecem nada melhor em troca. Quer, a ciência oficial, que nos entreguemos inermes às suas experimentações que, para cada efeito terapêutico de uma droga, mil colaterais se avizinham. Os achados em um punhado de pessoas quase sãs são "a prova suficiente" para a circulação de tal ou tal medicamento em larga escala. Anos depois, alguns são retirados às pressas por causa dos desastres.   

A lógica homeopática se encaixa no que ando sofrendo. O vitalismo explica os meus movimentos mórbidos mais do que o mecanicismo newtoniano. 

Ando agitado porque é o choque de dois impérios que presencio aos meus olhos. E, no meio do tiroteio, tenho de escolher a que líder seguir. Queria não tomar o cálcio a fim de estimular as paretireóides tanto que o impulso do remédio homeopático as fizesse despertar, mas de outro modo, é o medo da lassidão, da convulsão, da tetania em último caso. 

Se é para sofrer aos poucos caindo de degrau em degrau no abismo dos algoritmos alopáticos, por que não dançar nas teorias hahnemannianas das doenças crônicas? 


quarta-feira, 22 de março de 2017

Calma e Kayros

Carta ao meu amigo aprendiz

 

Querido, 

Só mais uma lição depois de um dia inteiro de aprendizado. Essa é daquelas para pensar por muito tempo, e prestar atenção qual o caminho para a virtude. 

Aquele senhor estava suando e em desespero. O desespero de nenhuma situação pode lhe contaminar. A busca pela assepsia também reside aí. Não é um pedantismo, longe disso. Mas, é que o desespero te tira da sobriedade, em cujo leito deve repousar seu raciocínio. 

Como você vai poder ajudar qualquer paciente que lhe venha se não parar para raciocinar em cima de um diagnóstico que te conduza em um caminho terapêutico possível? E, quero que saiba, que o diagnóstico é um campo de batalha na sua cabeça. Parece, às vezes, um jogo de xadrez. O desconforto do paciente move uma peça, você outra, e assim vai. É preciso respiração, presença plena, foco, olho no olho do oponente e decisão. O desespero não ajuda. 

É imperioso monitorar? Ok. Mas, o que você vai conseguir afobando a equipe? Você lança a convocação, as pessoas se alertam, você faz propostas, cada um vai acordando para o alarme em um tempo próprio de cada um, vão aderindo ao seu fluxo de comando gradativamente até que uma equipe está em harmonia de ação. Você tem uma equipe coesa? Haverá mais rapidez para a resposta. Você tem um protocolo claro e treinado? Haverá ainda mais rapidez. Você tem um magnetismo pessoal imponente? Haverá mais engajamento aos seus comandos. De todo modo, para conseguir a coesão, a rapidez e o engajamento, é preciso tempo e calma. 

Vou falar um pouco sobre o tempo. Os gregos entendiam que havia uma sub-dimensão do tempo que não era simplesmente a sucessão das coisas, mas era também as coisas acontecerem no momento oportuno. Onde podemos enxergar isso naquela emergência? 

O paciente estava sudoreico e em desespero? Por quê? Uma cadeia de eventos deveria ter se processado nele para quedá-lo àquela condição. Perdemos essa cadeia de vista e ela nos tomou de surpresa? Calma. Outra cadeia de eventos está se processando no momento da crise, e eu preciso captar o ponto em que posso atuar. Não conseguirei chegar mais rápido em lugar nenhum se eu não souber onde chegar. Não é rapidez, vê? É andar. Mas, por vezes, é parar e olhar. 

Poucas pessoas sabem, mas nossa ciência deve muito mais à astronomia do que à física. Os físicos tomam seus objetos de estudo e os controlam em laboratório. Os astrônomos contemplam seus objetos. Os físicos podem controlar variáveis. Os astrônomos tem que calcular o tempo certo da observação. Apenas nessa janela de oportunidade é que ele vai ter as condições necessárias para captar todos os dados possíveis a fim de propor explicações, referendando ou refutando o que já vinha acalentando como hipótese na alma. Se eu perco esse kayros, devo esperar o próximo. Para aquela cadeia de eventos, a oportunidade se foi, mas outra cadeia de eventos segue na órbita do que está acontecendo. É preciso estar aberto para captá-la. Seu desespero não vai fazer com que o astro acelere seu curso, e pode ser que esqueça, desvairado que estava, qualquer instrumento essencial para captar o momento. 

Arrume todos seus equipamentos cognitivos, esteja presente, poste-se numa posição de observação privilegiada e siga o instante.

Veja que a saturação dele estava um pouco baixa, que a frequência estava aumentada, que a pressão estava alta. Ainda não havia monitorização cardíaca, mas um membro da equipe estava indo em busca, e o outro havia tido a ideia de aspirar a traquéia, pois era sabido que se tratava de um senhor com muita secretividade e dificuldade de expeli-la. Estávamos pensando em infarto, mas tudo não passava de uma rolha de secreção. Ambas as hipóteses contemplavam a tétrade sudorese profusa, saturação baixa, freqüência aumentada, pressão alta. Mas, enquanto nos preparávamos para o pior, a aspiração traqueal mostrou-se suficiente. Se tivéssemos desesperado a equipe, impedido o movimento de cada um na sua órbita, conforme o impulso profissional individual, tentando submeter ao máximo todas as variáveis à nossa soberania, teríamos começado a dar anti-agregantes plaquetários a um paciente que estava se sufocando. 

Arrume todos seus equipamentos cognitivos, esteja presente, poste-se numa posição de observação privilegiada e siga o instante. Você não conseguirá enxergar nada se não souber para onde olhar. Não irá chegar em lugar nenhum se não souber para onde está indo. O tempo é cheio de oportunidades de ouro, é preciso calma para captá-las. 

terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Visita à comunidade

Elementos para a prática em campo e apontamentos de pesquisa


Logo no primeiro semestre, tomamos a liberdade de visitar a comunidade onde, a partir de então, fundaremos a maior parte de nossa prática. É a cercania da faculdade. 

Quando, no meio acadêmico, fala-se em extensão, tomamos por base que a universidade é um fulcro de produção de conhecimento que deve devolver à sociedade o que nela está sendo investida, isto é, devolver tecnologias que permitam prosseguir nossa caminhada de dissipar a ignorância. 

Algumas dessas tecnologias são estritamente utilitárias. Servem a propósitos bem mecânicos, entre os quais potencializar nossos meios de sobrevivência diante das adversidades. A maior parte delas categorizamos como tecnologias duras. Na medicina, são os antibióticos, e toda uma farmacopéia bem elaborada, mas também, os instrumentos de imaginologia que nos permitem devassar o corpo humano para além da visão desarmada, como o PET scan.  

Outras tecnologias, que viemos redescobrindo a bem pouco tempo, e que são a menina dos olhos da medicina à beira do leito, dizemos serem leves. É o olhar clínico, a acurácia da palpação, a agudeza da escuta dos mais diversos ruídos do corpo, mas também, e cada vez mais, o olhar entre as pessoas, o toque terapêutico, a abertura para a escuta das mais diversas falas do ser humano que está a minha frente, em presença viva e indiscutível. Há uma verdade, por vezes não exprimível em discurso cognoscível, de tudo o que outro traz na sua história de vida sintetizada naquela presença simples e óbvia logo ali.  É mais difícil dizer a que esses conhecimentos se prestam, pois prestam culto à ordem do ser e não do ser-para-algo. 

- O ônibus (tecnologia dura) serve para ir à minha amada. Mas, minha amada (o amor entre mim e ela e todas as sutilezas que nos unem - tecnologias leves), pra que serve?

Para visitar a comunidade é preciso desenvolver tecnologias leves. Entre elas, a etnografia, com seu olhar ampliado e sua descrição densa. Mas, uma etnografia desarmada. Desarmada no sentido que vou livre de pré-conceitos(1) e aberto para a descoberta do território que me acolhe. Essa ausência de pré-conceitos não é absoluta. Tenho de calçar certas habilidades que me permitam uma visão mais aguçada para detectar o que passaria despercebido por um olho à toa. Tanto é uma habilidade a ser adquirida (não-inata) que, nas primeiras vezes que se levou os alunos para mapear o território, a atividade foi infrutífera. Que frutos esperar de uma terra não arada, pobre dos nutrientes que poderiam fazer a árvore do conhecimento frutificar? Nesse semestre, decidimos apenas levá-los para já entrar nas casas e entrevistar as famílias, preencher questionários semi-estruturados, e já ir pensando quais informações satisfariam tal ou qual campo de instrumentos de conhecimento da dinâmica familiar (Ecomapa, FIRO, PRACTICE). 

Todavia, antes das entrevistas nas casas há o chegar nas casas. 


Pelas ruas

Há pelo menos duas grandes ruas que fazem os carros irem e virem da faculdade ou do fórum. Parecem ter sido construídas em planejamento ulterior, pois em sua margem imediata há comércios aglomerados. À montante, uma delas é estreita e vem de uma urbanização não lógica, cortada por alguns matagais, desde um grande lago, contornado por uma imensa avenida deserta, também dando impressão de ter sido forjada ulteriormente para facilitar acessos de carros. 

O que parece primordial nestes lugares são as habitações. As travessas que dão para elas não são pavimentadas e são oblíquas. Não há saneamento por estes becos, e um sulco em seu centro escoa as águas das chuvas. 

Boa parte das casas são coladas. Compartilham uma parede. A intimidade do som dos interiores parece ser fragilizado por esta arquitetura. O grito de uma casa pode ser perfeitamente ouvido pela outra. Talvez nem é preciso grito, conversas corriqueiras já atravessam o concreto. Não é difícil imaginar ter de sussurrar para guardar segredos. A intimidade das roupas também é exposta. Havendo dificuldade de espaços na profundidade das casas, e estando o sol escasso por estes dias, as roupas em geral, e as íntimas incluso, se acumulam expostas nas varandas e, em muitas delas, na própria frente da casa, em varais improvisados. Essa exposição, que em condomínios de classe média é denunciada rapidamente como corruptoras da estética das fachadas, não parece gerar desconforto entre os moradores e transeuntes dali, naturalizadas naquele cenário. 

Cachorros andam aqui e ali. Não parecem ser de raça os de rua, mas alguns domesticados e presos nas casas, sim. Os gatos são em maior número. Como é de praxe entre estes, não parecem ter donos. São mais sujos, também. E um deles parecia estar bem doente e traumatizado logo em frente a uma das casas que entramos. 

Eram dez horas da manhã e, desde antes, músicas cortavam o lugar, bregas, sertanejas, antigas, e todas nacionais. Vinham de bares. E já nestes - estamos às dez horas da manhã - alguns homens sentavam em frente de copos de cachaça. 

Núcleos de igrejas evangélicas eram mais notáveis, por serem mais numerosas, que igrejas católicas. Parece-me conseqüente da própria estrutura doutrinária destas religiões. A evangélica espalha mais líderes sacerdotais na comunidade. Uma casa, uma garagem, uma sala tem o poder de virar um centro de culto com mais facilidade do que virar toda uma igreja, com abóbada, vitrais e chancela vaticana. Fabricar um sacerdote católico custa mais tempo. Um pastor, em muitas denominações de igrejas reformadas, nasce de uma fidelidade à letra da bíblia, não carece tanto de divagações exegéticas, senão da arte de decorar. 

Devemos levar em conta a força de uma referência bibliográfica (não podemos esquecer que a bíblia é um conjunto de livros) que é tão confiável a ponto de o próprio ato de decorar seus versículos já confere poder a quem o faz. Diante de uma modernidade caracterizada pela liquidez de todos os discursos, isso é o que se chama tábua de salvação. 

Entre as casas evangélicas, uma placa chamava a atenção. Mostrava a imagem de uma miríade de cadeiras de rodas e muletas abandonadas. Não era para informar à vizinhança que ali havia doação de cadeiras, mas sim que havia força de milagre. Elas haviam sido abandonadas! 

Entre os substantivos que davam nomes para as casas de comércio havia anglicismos, nomes próprios, apelidos, nomes jocosos, mas chamou-me a atenção a repetição de um nome em pelo menos dois estabelecimentos: El Shaday. É uma palavra hebraica que significa "Deus todo poderoso". O grande monumento da cultura hebraica é a letra sagrada. O povo judeu só não se quebrou nas diásporas porque a letra os unia. As histórias sagradas davam um senso de identidade para além das terras. Talvez isso, associado a um certo senso mágico, faria com que as pessoas colocassem esses nomes em suas casas. Isso fala a favor, ao mesmo tempo, de um pertencimento cultural e de uma vontade de proteção.

Sobre outras religiões, não as encontrei. O que não implica sua inexistência, já que muitas acontecem nas sombras, e são mais caladas. Apenas uma convivência maior nos becos daquele lugar poderia nos levar a mesas mediúnicas, terreiros de entidades, salas de meditação. 

Há carros passando, mas a maioria não são dali. O povo da comunidade anda no lugar a pé ou de bicicleta. Há padarias e mercantis, além de muitas lojas de utilidades e vestimentas, depósitos de construção, marcenarias, consertos em geral. São lojas pequenas. Não há grandes marcas nem centros autorizados. Parecem ser o serviço que a própria comunidade presta àquela vizinhança como auto-provimento. 


Nos corpos 

O calor de nossos trópicos induz-nos à poucas vestimentas. Homens andam de camisetas ou tórax despido. As mulheres possuem calças curtas, blusas poucas. Grande parte não tem banho de loja ou de cuidados de salão. É um contraste evidente com nossas alunas. Os olhos acostumados à moda que me circunda estranha a combinação de roupas usadas por aquelas gentes. Seria um estudo para ser feito. 

Outro efeito dos trópicos é corar os corpos. Claro que há o fator da miscigenação gerado pelo caldeirão de etnias que aqui aportaram. O tipo sertanejo dominou entre nós. Mostra um espectro de peles pardas, muitas delas enrugadas e enrijecidas pelo sol. 

O sobrepeso e a obesidade toma conta das mulheres maiores do que quarenta anos. As varizes e as artroses de joelho são evidentes. Segundo os livros, obedecem a lógica da sobrecarga do peso sobre os pés, e da andança de todo dia carregando as compras. Vou abstrair, neste momento, a vulnerabilidade genética que justificaria as discrepâncias. 

Os homens eram menos sujeitos ao estereótipo da obesidade, embora ainda os houvesse, particularmente os dos bares. E sabemos que seus joelhos desgastam-se menos por outros tantos motivos anatômicos. Mas, outro estudo a ser feito seria da prevalência das dores de colunas, bem como do alcoolismo que se revela mais gritante à noite. Coloco estas duas entidades lado a lado, porque ambas são o reflexo de más formas de lidar com a dureza da vida. A coluna reclama não apenas das más posturas, mas de ter de sustentar o mundo nas costas - Síndrome de Atlas(2). O álcool ajuda a esquecer as dores dos machos que não se entregam ao desabafo entre pares - Síndrome de Prometeu(2), o titã que roubou o fogo dos deuses e teve seu fígado sujeito a eterna corrosão, apartado de seu irmão.

As mulheres também sustentam o mundo nas costas. Outros mundos. Mais um estudo em perspectiva: quais mundos, naquela comunidade, cada gênero e idade sustenta? Digo idade, porque mesmo na senectude, entre as classes populares, outras obrigações surgem no horizonte, como o cuidado dos netos pelas avós, enquanto a filha adolescente tenta complementar a renda de casa para sustentar o fruto da consecução do desejo não planejado. Daí, outras lógicas pato-lógicas poderiam emergir. Sabemos, da literatura, que se o homem enfrenta os reveses se alcoolizando, a mulher vai desistindo da luta em depressão. Síndrome de Deméter(2), que tem de prover os cereais da comunidade, mas mostra um humor invernal de quando em quando. Por trás das tristezas de Deméter há sempre um amor roubado.

A intimidade dos corpos das mulheres desde cedo, em torno dos vinte e cinco anos, é motivo de pesquisa pela medicina moderna. Sobre ela cai o fardo da prevenção do câncer de colo uterino. Os agentes de saúde reforçam a necessidade de fazê-lo anualmente. Quem não faz é vítima de reprovação. Sabemos que a cada duas prevenções normais, a mulher poderia se dar ao luxo de ser livre dessa invasão por três anos. Mas, prega-se a prevenção anual entre as camadas populares para se criar uma cultura da busca do mal, do achado precoce, da extirpação curativa, e assim cria-se a obviedade de que aquele desejo de intimidade é um prurido a ser combatido. Aos cinqüenta, seus seios deverão ser submetidos à prensa da mamografia, e novo imperativo a faz tirar a roupa. Desta vez a anualidade não tem escapatória. Se a sensibilidade tátil do tecido mamário é maior para esta ou aquela mulher, "trinque os dentes e se entregue que o exame é rápido". 

Para os homens, uma medida anual de um mero aperto de braço, o tal "tirar a pressão" é a única coisa que lhes é cobrada, idealmente a partir dos 18 anos. Desde, então, é de bom tom colocar-lhes na cabeça o uso indiscriminado da camisinha. Mas, nenhum oficial médico há de pedir para qualquer deles tirar a roupa no momento do ato sexual a fim de intrometer o condom. Aos cinqüenta anos, e só então, uma certa propaganda urológica quer trazer os homens para a mesa de exame. Os estudos, todavia, são conflitantes e nem todo médico é de acordo que essa medida nos salvaria das mortes do câncer de próstata. Intimidade resguardada. 

Outro estudo descritivo sobre os corpos destas pessoas é a respeito das cicatrizes de cesárea. Quantas mulheres a tem? Em um país com número de cesáreas alarmantes, as classes menos favorecidas não parecem ser a que mais alimentam as estatísticas. O Sistema Único de Saúde agradece e força essa cultura do "parto normal" porque é mais saudável, menos sujeito a danos e, muito importante, menos custoso. Não é mentira. Mas, é de se imaginar que se entre as mulheres dali alguma esboça a vontade da cesárea como ato de liberdade de não querer sentir a dor selvagem da parição, será melhor demovê-la dessa ideia torpe, já que as maternidades não dão meios para a consecução dessa liberdade, e não possuem anestesistas para promover um "parto normal" com menos dor. Apesar disso, de todas as mulheres que atendi no posto de saúde próximo dali, nenhuma reclamou dessa falta de livre escolha. Tanto o "parto normal" era o mais óbvio, quanto a amamentação exclusiva. 

Nos foi relatado pelos alunos que se depararam, em uma mesma casa, com a discrepância de duas falas, lado a lado. De um lado, uma senhora saudável felicitava a facilidade de acesso aos serviços do centro de saúde, de outro, um senhor, cheio de comorbidades, amaldiçoava a burocracia que o impedia de ter o exames que o médico solicitava em tempo hábil. Veja que o corpo quando adoecido faz mudar completamente a forma como o sistema o acolhe. 

Tomemos o câncer como exemplo. As políticas de contenção dos cânceres fazem abrir múltiplas portas para a detecção precoce. A coisa vai ficando mais difícil quando o câncer já está presente e se disseminando. Mais atenção de um só profissional e mais profissionais para uma só pessoa devem existir quando a doença impera. No outro extremo, há um só profissional espalhando um teste simples a mancheia quando a doença ainda nem se revelou. Eis a lógica da clínica, de um lado, e do rastreio, no outro. 

Não percebi a presença dos jovens naquela hora do dia. Estaria no trabalho, a maioria? Ou na escola? Ou, se economicamente ativos porém desempregados, dormindo? Aqui e ali lembro de um entregador (de água, de gás, de compras). A juventude permite a resistência e a velocidade que essa atividade exige. Se da literatura temos também o conhecimento alarmante da mortalidade por causas externas afetando este público, outro estudo a ser realizado seria o das marcas da violência nesta comunidade. Mais tempo nela nos permitiria conhecer as gangues que brigam pelo território, as bocas de fumo, os tipos de droga, a estatística do consumo. Uma coisa é visitá-la no começo do dia, outra dinâmica se processa na calada da noite. 

Sabe-se, de outras experiências, que a droga ilícita não tem face. Há os que já são demais dependentes. Estes são típicos e induzem medo. Todavia, a maioria não levanta suspeita. Do bêbado no bar ao entregador de água, e mesmo à dona de casa, todos podem já ser consumidores. E qual a proteção que se pode ter contra ela? A cultura do consumismo, da lógica do capital, que induziu a liquefação das crenças mais caras, buscando instilar em todos a necessidade de satisfazer prazeres gerados pelo produto recém-inventado é o fator de risco primeiro para a drogadição. Qual o discurso do drogado senão o "eu preciso daquilo"? É o mesmo dos clientes da Apple frente ao novo modelo de smartphone. Ainda me lembro de vovó que tinha seu vestido costurado várias vezes, e poucos vestidos no armário para renovar o que se perdeu, sob a justificativa extremamente plausível de "não precisar de mais, já que só tinha um corpo". Ela tinha suas certezas, fortalecidas pela religião, que funciona sobre textos que se pretendem superiores à corrosão do tempo. Para gerar um público de consumidores a primeira coisa que se tem de fazer é fragilizar suas certezas, convencê-los da insuficiência do que possuem. Devemos olhar com bons olhos a proliferação de igrejas nas zonas de risco. São formas da comunidade se defender do mal que as invade.

No mais, nosso destino eram idosos que apresentavam no soma o desequilíbrio da pressão arterial (a hipertensão) e do metabolismo da glicose (o diabetes). Estas são doenças ditas crônico-degenerativas que vêm se mostrando multicausal, quebrando o antigo paradigma biomédico que via por trás de cada doença um, e apenas um, agente maligno. Sabe-se que mesmo as infecções surgem e se proliferam porque, na linha que conecta a saúde ao momento da doença, houve uma soma de agressões sobre fragilidades psico-socio-ambientais. Não por outro motivo estas doenças eclodem no meio da vida: acúmulo. Os idosos tinham muito o que falar.   

Das casas

Não era tarefa dos professores entrar em nenhuma. Apenas deixamos os alunos entregues às pessoas que podiam recebê-los. No entanto, da porta dava para ver alguns outros tantos elementos que dariam margem para outras muitas observações: os quadros, as cores, os móveis, as fotos, os santos, o cuidado com a casa, o chão.

Os santos de uma casa não são elementos decorativos inertes. Eles anunciam um panteão. Há uma rede de crenças que os fundamenta. Sabemos que, entre as religiões que permitem a iconofilia, elementos de um antigo politeísmo se reencarna na forma das pessoas lidarem com seus ídolos. Cada santo é para um propósito na vida. Pontuo outro estudo: que santos há nas casas das pessoas deste lugar? O que representam? Que poder simbolizam? Por que tê-los em casa? 

Assim como o capô de um carro ainda quente revela um passeio recente, as casas, muitas delas, com puxadinhos construídos e tijolos ainda sem pintura nos sugerem movimentos das famílias. Alguém nasceu ali e não teve para onde ir. O dinheiro faltou para a tinta. A família cresceu e se tornou multigeracional. Um membro enlouqueceu ou caducou com crises de fúria e teve de ser isolado. Alguém perdeu a locomoção e as escadas para o quarto de cima se tornaram intransponíveis. Pode ser ainda para alugar o andar de cima a fim de aumentar a renda, ou se mudar para cima no intuito de transformar o andar de baixo em ponto comercial. 

Muitos casebres são escuros. A luz do sol é sufocada em um espaço sem ventilação. Constatando-se isso, a vigilância epidemiológica já sabe que terá dores de cabeça com os miasmas(3) circulantes.

Muitas casas ostentavam algumas mudas de plantas na frente. Perguntei para um dos donos de que eram: alfavaca, coentro, salsa, cheiro verde, pimenta. Os espécimes se repetiam. Uma flora domesticada que servia para melhorar a saúde e tornar os alimentos mais apetitosos. Outro estudo descritivo me surge à mente: mapear os elementos das hortas do lugar e, sobre as plantas medicinais, entender qual o conhecimento que as pessoas tem sobre os efeitos daquelas plantas, as formas de preparar o remédio, de consumir. 

Algo do espírito

Aqui apenas norteio zonas de investigação. Precisaria de muito mais convívio para tanto.

Difícil abordar esse tema, mas eu começaria pelas festas. Várias religiões se pautam pelas festas, as sagradas e mesmo as profanas. Lembrar que as festas ao deus grego Dioniso eram de vinho, sacrifício e danças esdrúxulas. Lembrar mais ainda que as tragédias são tão violentas quanto sagradas, vide a morte de Cristo. Como as pessoas vivem e ressignificam as datas festivas? Na antiguidade, gregos, romanos, celtas (o mais famoso povo "bárbaro"), bem como, ainda hoje, judeus e cristãos, todos celebram datas que importam para o espírito das gentes. 

Deveríamos fazer uma análise dos símbolos, também. Os templos se constroem sobre símbolos. A arquitetura é a mais simbólica das ciências. Desde a abóbada inatingível da catedral católica como a denunciar a pequenez do homem que adentra, até as entidades que se manifestam no terreiro fecundo das religiões afro-descendentes e indígenas a chamar o homem para sua essência telúrica. A astronomia um dia foi uma ciência simbólica, também, mas quem liga para as estrelas nestes dias. 

As artes revelam muito do espírito. Todavia, o campo de estudo é movediço. Seria preciso todo um olhar sobre o significado da arte para estas pessoas a fim de começar a fazer correlações. O conceito da arte mudou com o tempo. A relação dela com o divino transformou-se drasticamente. O surgimento da noção de gênio e de gosto na idade moderna reflete toda uma história do desenvolvimento da noção de individualidade e sua relação com o processo criador. Qual a diferença entre a arte técnica e a arte criação? Em que a arte ajudaria como estratégia de enfrentamento das adversidades? Como avaliar seu significado para o indivíduo quando ela se reduz a ganha-pão, quando, como na fábula, a moral da formiga esmaga a da cigarra. De outro modo, mesmo quando a arte mostra sua face de ganha-pão, não haveria nela também os elementos de coping, de resistência e de transcendência? 

Por fim, se tempo houvesse, seria o coroamento de todo esse processo sentar e ouvir as histórias das pessoas. Seria um afazer para dias, meses até. A melhor técnica de colher essas histórias seria com perguntas gerais e leves para que pudessem surgir da boca do povo frescas, improvisadas, brutas. Ouvir-se-ia sobre a história da construção daquele lugar ("ainda me lembro quando"), sobre a intimidade dos lares desabafadas entre vizinhos ("tu não imagina o que aconteceu"), sobre as angústias ("por que você está assim"), sobre os fantasmas e lendas ("dizem que"). E se a ética dos confessionários permitisse, com o devido sigilo, entrevistar padres, pastores, pais-de-santo, dirigentes de centros espíritas, figuras de autoridade de religiões xamânicas sobre os pecados do lugar, mas também sobre as virtudes, os exemplos de santidade. 

A guisa de conclusão

Falei à introdução que era preciso tecnologia leve para mergulhar em um estudo assim. Era preciso de leveza de um modo geral. Chegar perto das pessoas, saber entrar em uma conversa, saber prosear, saber a pergunta certa na hora certa, sem interromper o fluxo da fala. Saber também, em cada momento, decifrar o que o espaço está dizendo, o fluxo das gentes, as construções sociais. 

A pergunta primeira para o estudante de medicina é sobre que utilidade algo assim deve ter para o exercício da profissão dele. De novo volto ao tema, porque importa de fato a distinção: há coisas que não servem para nada. E importa que seja assim. 

A primeira das ciências que floresceu na humanidade foi a Astronomia, mesmo entre povos não navegantes como os astecas. Conhecer o céu dava um sentido para Terra, para a vida das pessoas. Vivemos sob a perpétua sombra dele. Com o tempo, o homem vai descobrindo o que fazer com aquilo. A ciência do saber fazer, do transformar o objeto cognoscível em instrumento manipulável é algo que acontece a posteriori. Um físico se debruça sobre o comportamento do núcleo atômico, o outro transforma a energia da fissão nuclear em bomba atômica. Claro que há exemplo melhores, um biólogo estuda os fungos, o outro desenvolve o antibiótico. O ser precede o "o que fazer com o ser". 

Aconselho que nesse começo se encantem com o ser das pessoas, da famílias, das comunidades. O diagnóstico é uma ciência futura que precisará do ser como fundamento. A epidemiologia descritiva também precisará apenas disso. Abrir os olhos para descrição é o primeiro exercício da virtude clínica. Saibam que clínica vem do grego, clinamen, que seria uma inclinação. No caso do médico, é uma inclinação ao corpo do paciente, é um debruçar-se, a fim de coletar todos os dados possíveis que o permita enxergar algo que forme uma entidade lógica de funcionamento sobre a qual possamos atuar a favor do restabelecimento ou manutenção da saúde. Contudo, anterior a qualquer formação racional é preciso os dados da realidade que bruxuleia a nossa frente. Com o tempo e prática você vai percebendo o que há de importante num piscar de olhos. Com o tempo e a prática. É preciso todavia estar aberto a surpresas, já que nem três vidas seriam suficientes para que a realidade se revelasse toda ao Espírito. Quantas vidas seria preciso? O Todo é inapreensível! Como o mar poderia caber em uma concha? Todavia, precisamos tentar fazer os recortes que nos ajudam a viver. 

Bem, essa prática é um recorte. Estamos voltando aos exercícios de alfabetização em que brincávamos de corte-e-colagem. Em breve aprenderemos a ler. Mas, é imperioso começar.   

domingo, 26 de fevereiro de 2017

Formação médica (?)

Estive discutindo com a turma de estudantes de medicina que venho acompanhando. Deram-me a oportunidade ímpar de ser o tutor deles em um método que lembra o de Sócrates, com a ironia característica de quem sabe mas não vai dizer nada, apenas conduzindo aos poucos o parto do espírito para os conhecimentos que valham a pena aprender. 

Nossa discussão foi gerada pelo desespero deles. Ao contrário do círculo socrático, não é a vida que vai cobrar o conhecimento, mas, por ora, é a prova que se aproxima. Uma moça, muito inteligente no mais, me colocou contra a parede alegando que os conhecimentos práticos que pelejo passar, ela entende serem assaz importantes, mas a prova urge, e é esta que vai permitir passar adiante ou não. 

É que vim tentando por em prática o que sentia falta na faculdade. Somos arremessados em um conjunto de ensinamentos teóricos, principalmente no que tange as ciências básicas, que são desencarnados da realidade médica. Quando se pensa em canais de cálcio, de potássio ou de sódio, não se faz a mínima ideia o quanto o conhecimento sobre o funcionamento deles salva vidas diariamente. Então, vez ou outra, lanço desafios que tentam fazê-los enxergar a aplicação da coisa. Só que não faço ideia se essa aplicação será cobrada na prova. Nesse início a prova é grandemente decoreba, e ficar contextualizando gasta tempo de leitura que pode cansar seus cérebros. 

Então, eles entram em contato com outros grupos e vêem que estes chegam em objetivos de aprendizagem bem mais acadêmicos que nós, mais trabalhados até. Vou ficando feliz com o avanço deles em crescer coletivamente, em induzir o outro à participação, em respeitar o momento do colega, mas quando esse microcosmo de aprendizado se confronta com o macrocosmo da turma inteira, sentem-se atrás. 

Certo dia, discutimos sobre propriedades farmacocinéticas de anestésicos cotidianos das emergências médicas, e eles me vieram raciocinando com perspectivas de soluções para problemas bioquímicos que ainda estão para ser elucidados. Isso é uma vitória! Acredito que bem mais do que a matéria livresca presa nos neurônios. 

Todavia, a prova urge. Neste carnaval alguns devem estar se desfazendo sobre anotações de cadernos e livros digitais. Bem que ainda desejo uma forma de aprendizado diferente. Tudo bem que as vidas estarão em breve nestas mãos. Contudo, fico pensando o quanto essas singularidades deformam-nos: o conhecimento técnico urgente na cabeça, mas também a impaciência, o afobamento, a agitação, o desespero, a ansiedade, a falta de tempo de contemplar uma flor, de beijar o filho, de deitar com o amor. 

Acho que a faculdade de medicina deveria ser por mais tempo. Mas, não para contemplar mais matérias. Segredo inconfessável: se a vida inteira nós tivéssemos ainda assim não daria para contemplar um décimo. Queria mais tempo para que pudéssemos ter mais tempo para a vida. Só que custa caro a formação de um médico. Dos cursos, o mais caro! No meu caso, custou-me a vida de papai. Louco que estava para me entregar o diploma, velho demais também, o coração pára antes da vontade. O corpo dele em meus braços antes da faculdade finda foi meu diploma precoce, e num momento em que, enfim, havia me encontrado médico. 

Vamos lá. Prossigamos mergulhando nos livros. Perdidos em certo amontoado de letras, talvez encontremo-nos a nós mesmos.  

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

De volta ao hospital (Parte 3)

O primeiro paciente do dia que fui olhar era um que estava arfando de morte. 

Havia sido internado por causa da dispneia que vinha tomando conta de si nas últimas semanas. 

Existem alguns tipos de dispneia. Um professor de pneumologia havia definido o sintoma de forma bem prática. Não é  normal sentir a respiração. Dispnéia é quando você é direcionado, involutariamente, a perceber que respira. 

Antes desta internação, havia outras dispnéias do paciente. Uma já de há muito, por causa da depressão. É o que chamamos de dispneia suspirosa. Penso que a depressão, quando toma conta do paciente, o faz se sentir com o corpo alienado. É um fardo mesmo fazer os pulmões inflarem. Houve também uma dispnéia dolorosa, não pelos pulmões em si. Eles se ressentiam da dor do fêmur quebrado pelo câncer que há muito o invadia. Ninguém descobriu de onde vinha a doença. Das invasões bárbaras, a pior é quando não se sabe seu quartel general. 

Então, ali estava ele, dispnéico por múltiplos motivos, hoje com um pulmão tomado pelo câncer, e sem oxigênio mesmo para discernir se eu era o doutor ou o seu pai. 

A minha sina da manhã foi tentar encontrar um lugar onde pudesse descansar em paz. Não cheguei a perguntar quanto tempo dos seus quarenta e cinco anos foi de sofrimento. O fato é que mesmo a família já havia aceitado que deveria descansar. Sem mais qualquer dor que a medicina quisesse inflingir em busca de uma cura que não existia. 

Todos os lugares estavam lotados. Nenhum podia acolhê-lo. 

- Você coloca um biombozinho para isolar o momento. - disse o jovem médico da sala de parada. 

Meu Deus! Tão jovem, bem mais que eu, e já dando orientações de como se pode morrer com uma dignidade menos aviltante. 

Eram sete pacientes em uma sala pequena. Mais sete acompanhantes, um para cada. Mais quatro auxiliares de enfermagem entrando e saindo da sala. Mais duas enfermeiras se revezando no uso do computador para aprazar as prescrições do dia. Nesse alvoroço, ali no canto, talvez vendo o próprio pai vindo lhe buscar, ele chamava suas lembranças para lhe escoltarem na passagem. Mas, sua partida não foi tranqüila de início. Um remédio para lhe acalmar o conduziu para um sono profundo. A partir daí, o semblante serenou.  A respiração começou a falhar. 

Entre os espíritas, acreditamos que estes são os momentos que uma equipe de cirurgiões transcendentais vão cortando os liames que ligam o corpo ao Espírito. É uma cirurgia delicada e doce. Energias impostas sobre pontos específicos vão afrouxando laços. Um influxo especial no centro de força coronário seda a pessoa. Como a doença já vinha crônica, todo um ambiente já vinha sendo preparado para a recepção dele. 

- Ele parte nas próximas horas. 

A filha chora forte, mas busca não soluçar para não constranger os demais estranhos ao momento. Os outros familiares não estavam presentes porque não aguentariam ver. E se agüentassem, caberia mais alguém lá?

Vou à sala de reanimação avisar aos médicos da partida que não tarda. Aviso também ao chefe de equipe do dia, preso ao telefone em busca de vagas, e aos outros colegas que assistem o corredor. Alguém preencherá a declaração de óbito. Percorro o corredor infinito até a máquina do ponto. Despeço-me do dia. Que vontade de abraçar meu filho!

domingo, 29 de janeiro de 2017

De volta ao hospital público (Parte 2)

Há cenas amenas. Algumas que passam na nossa visão, outras que passam pela alma.

Todo dia, pelo menos um religioso canta uma música, creio que evangélica. Ela chama milagres e traz consolo. Dia desses eram três, faziam coro. Não era tão afinado, mas era. Quero dizer, o simples fato de eles estarem ali, já é uma grandeza. 

Um rapaz trazendo sua bíblia na mão deformada chega para uma jovem pálida. 

- Perdoe o intrometimento, posso ler uma passagem?
- Claro!
- Você é evangélica?
- Não, mas preciso ouvir. 

Se fosse feita uma pesquisa e o Salmo 91 fosse o vencedor de leitura, não me admiraria. Já viram o quanto ele forte?


"Tu não temerás os terrores noturnos, nem a flecha que voa à luz do dia, nem a peste que se propaga nas trevas, nem o mal que grassa ao meio-dia." (grifo meu)

As pessoas se acomodam como podem. Não dei plantão a noite, neste retorno, e acho difícil imaginar como os acompanhantes dormem. O chão é frio, e se não cheira a desinfetante forte, é que excrementos tomaram conta do ar.

Uma senhora dizia a outra:

- Mulher, eu tenho insônia. Aproveito para trabalhar como acompanhante de hospital. 

Era uma senhora gorda, coluna maltratada, olheiras fundas, e um grande sorriso mostrando poucos dentes. 

Mesmo no meio de tanta desgraça, aqui e acolá vê-se sorrisos (não raro flertes) e alguém contando uma piada para o outro. Pede-se para olhar "o meu paciente" só enquanto vai-se ali (fazer pipi, cocô, fumar, cuspir, tomar ar). 

De vez em quando o vão do corredor é ocupado por uma maca em transporte. O auxiliar manobra para conseguir transitar. Nós nos afastamos, encolhemo-nos no canto, em pausa, atentos, a postos, até ele passar. Um paciente que precisa ser transportado na maca, nunca está bem. Cor mórbida, semblante abatido, por vezes de máscara de oxigênio, quase sempre com uma sonda colocada na uretra para que ele não tenha o esforço de urinar. 

Após a maca ir, voltamos a busca:

- Dona Fulana de Tal, alguém sabe onde está Dona Fulana de Tal?
- Aqui, doutor, ela está aqui!
- Olá! Como você está hoje?
- Bem...


De volta ao hospital público (Parte 1)

Estive precisando dar plantões pelos corredores do hospital público em que terminei minha graduação, há nove anos. Os meus amigos da época, neste hospital, já são preceptores, médicos de referência, o assim chamado staff. Chefes de equipe, alguns cirurgiões e um quase neurocirurgião foram meus internos quando rodaram pelo posto de saúde em que fiz minha residência em medicina de família. Nas próximas três postagens vou descrever algumas cenas que testemunhei. 


***

Estive dando plantão na pior parte do hospital. É onde os pacientes, por falta de leito, ficam espalhados pelos corredores. Da minha época para cá, a fileira de macas no corredor quintuplicou. 

No primeiro dia em que lá estive, cheguei em casa sugado. As cenas de opróbrio pioraram, ou eu me tornei mais sensível. Há computadores espalhados em vários pontos para facilitar a evolução dos paciente independente da zona do corredor em que estejamos. De vez em quando, uma cadeira do computador some, pois algum acompanhante achou por bem tirá-la já que não havia nenhum médico usando. Justiça: antes nós, só durante a prescrição, do que eles, pelo dia inteiro, ficarem em pé.

Alguns comandos de ordem:

"Começar pelos não prescritos". Isso significa que há pacientes que ficam sem ser vistos por um, dois... quatro dias. Quatro foi o máximo que encontrei. 

"Priorizar quem está tomando antibiótico, para não falhar a tomada". E, então eu encontro um jovem cuja cultura isolou uma bactéria multirresistente. A enfermagem fica abismada: "como poderemos deixar ele isolado aqui?!"

Um diálogo apressado:

- Doutor, veja o meu paciente, pelo amor de Deus, faz um (ou dois, ou três) dias que ninguém vê! Desse jeito vou dar um escândalo!
- Senhora, esses três prontuários que tenho na mão também são de pacientes que não foram vistos e cujos acompanhantes me ameaçaram de escândalo. 

Três ou quatro médicos são responsáveis por ver os oitenta a cem pacientes da chamada observação I, com extras no corredor (quando são "apenas" sessenta, comemora-se).  Revesamo-nos, também, com o consultório, cujos pacientes que nos chegam são aqueles graves o suficiente para que o chefe de equipe não os mande procurar a UPA já da porta. O meu julgamento clínico, no consultório, acrescenta uma variável que não está nos livros de medicina interna: estaria esta pessoa com gravidade suficiente que supere o risco de ela ser assistida naquele corredor de hospital?

Não sei se existe alguma solução para este quadro em curto prazo. Não sei se existe solução para este quadro. Disseram-me que isso que descrevi não é privilégio de Fortaleza. Não queria estar na pele do responsável em melhorar isso.