quarta-feira, 10 de agosto de 2016

Trabalhe em emergência. Não, digo, não trabalhe, quer dizer...

Eu tenho um amigo que ainda peleja por sobreviver à faculdade de medicina. Sou professor e poderia direcionar esse conselho para todos os meus alunos, mas se pensasse neles ficaria algo distante, e quero uma fala de mão no ombro. Falo para meu amigo. 

Não trabalhe em emergências. 

Você chegará cansado demais em casa, seu corpo estará quebrado por dentro, seus ossos parecerão estilhaçados de tanto esforço. Nós dois que nos esmeramos no pensamento de humanização da relação de assistência caímos decepcionados com o sistema que come nosso tempo com o paciente. 

Não. Trabalhe em emergências. 

Lembrei que o conhecimento que aprendemos na faculdade é dinamizado como nunca antes à beira do leito do paciente, na margem da mesa da consulta. Os olhos são treinados para as diferentes cores da pele doente, para os andares quebrados, para os inchaços e as assimetrias, de tal modo que muitos diagnósticos você já os dá enquanto o paciente entra no consultório. 

Esqueça. Não trabalhe em emergências. 

Com o tempo você se confia demais nesse olhar aquilino e diminui a fala. Quando o bicho pega no plantão, você fica cego para o espírito, vê apenas corpos adoecidos, entra e sai das salas sem cumprimentar, apenas para dar seguimento a raciocínios diagnóstico-terapêuticos. 

Isto é, trabalhe em emergências. 

Em boa parte dessas entradas você vai ver que o remédio que acabou de prescrever logo atrás já fez efeito. As dores que chegaram gritando foram sanadas. O semblante calmo vem te agradecer já na sua entrada. Quando você exerce sua atividade com proficiência, a sua simples presença passa a ser alento e segurança para quem estava aflito, para a equipe até. 

Não, garoto, não trabalhe por lá. 

Esses poderes sobem a cabeça. Vem a vontade de fazer piada dos sofrimentos, por eles se tornarem comuns no seu dia. Por saber que essa morbidade não causará morte, que aquela passará em tal tempo, que aquela outra é psicogênica. Vai querer rir da desgraça, porque ela não está em seu próprio corpo, pois o que há no seu corpo é cansaço desejoso de descontração. 

Não, espera! Trabalhe, trabalhe sim. 

Queria que você visse a gratidão dos familiares quando consegue um leito em um hospital bom, ou quando, depois de todos os seus esforços, vigilâncias, dedicação, o paciente se restabelece. Receber alguns presentinhos simbólicos. 

Não espere. Saia logo de lá. 

Vai experimentar o amargo de ser o primeiro a dizer que "ele(a) não agüentou". E ouvir o choro contido, ou o grito desesperador. 

Espera. Não saia logo. 

Olhe direitinho para esse choro ou para aquele grito. Você vai passar por isso em todo lugar da medicina que for. Contemple um pouco. Acolha-o. Você vai passar por isso em todo lugar da vida. 

Mas, quando perceber que a emergência está te anestesiando da compaixão da morte, está, definitivamente, na hora de sair. Ela te engana sobre a infinitude da vida. Aprenda o que tem de aprender e siga adiante.

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