sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

As coisas da Primária são Complexas demais

Hoje assisti à aula de uma excelente professora. Muito experiente. Acho o fazer do professor algo encantador. Nenhum conhecimento é válido se não puder ser passado adiante. Quem assume isso para a vida se chama professor, merece todo o respeito. 

É assim que encaro a medicina. Odeio (esse é o verbo) conhecimentos que não podem ser disponibilizados para o mundo inteiro, mas apenas para alguns iniciados. Se algo não é passível de ser transmitido, era melhor que tivesse ficado calado. O problema é que tudo é passível de transmissão. Essa é a nossa missão de seres vivos desde os procariontes: passar informações adiante. Mais dia, menos dia elas são distribuídas em massa. E como essa era de internet facilitou isso!

O que venho falar aqui, na verdade, é sobre um lamento que a professora soltou: 

- Estas matérias não deveriam ser passadas para vocês nos primeiros dois semestres da faculdade, porque são muito complexas!

Ela falava sobre assuntos que geralmente são considerados inúteis pelos alunos e cuja abordagem em provas de múltipla escolha são completamente imbecis (essa é a palavra). Senão vejamos:


Em relação à definição e descrição do território de abrangência, assinale a alternativa CORRETA:
A) [A pessoa escreve alguma pegadinha]
B) [Mais outra pegadinha no meio da frase]
C) [Mais uma...]
D) [Esta é a opção que o autor da questão quer que você marque] O território é um espaço vivo de relações e de produção de identidades, subjetividades, crenças e valores, por isso deve ser decifrado como espaço dinâmico, produto de uma dinâmica social, possuidor de sujeitos sociais, conflitos e interesses.

 Esse conceito aí foi elaborado por um dos brasileiros mais eminentes que já passou pelo século XX. Quer ter uma ideia do pensamento dele, assita a esse documentário:



Agregador de vários títulos acadêmicos aqui e fora do Brasil. Admirado e estudado internacionalmente. Aí, vem um estudante do primeiro ano da faculdade de medicina, assiste uma aula sobre isso e diz: 

- Óbvio que é essa a resposta!

E sai considerando os temas da Atenção Primária questões de sensatez, um psicoteste à la provas para receber carteira para dirigir. Desconsidera a grandeza que foi o homem ter enxergado o território como um produtor de subjetividade. Só essa parte da frase já daria um livro de discussão e aprendizado. 

Por que tantas pessoas que saem do seu interior, deixando os fantasmas de suas histórias para trás, a fim de buscar vida melhor na capital tem mais risco de desenvolver transtornos mentais, somatizações, dores inexplicáveis, intratáveis? Porque sua subjetividade ficou no território de onde veio. Porque aqui ela está mutilada, sozinha (por mais que haja alta densidade demográfica), sem chão. Por que nas favelas há mais doenças? Por que são porcos? Não. Porque o território deles está em plena guerra de interesses onde são jogados os espojos da civilização que mora bem. Meu Deus! Por que falamos essa expressão "fiquei sem chão" quando perdemos o norte? Porque somos seres telúricos por excelência. "Já morei em tanta casa que eu nem me lembro mais", mas qualquer dia eu volto a morar "com meus pais". Ainda que seja no cemitério, se os latifundiários permitirem eu ter um palmo de terra para guardar meu caixão...

Estudar sobre território, políticas públicas, gestão de recursos, educação popular são de uma complexidade que não cabe em questões de residência. Têm de ser vividas, sentidas na pele, degustadas com o povo. É pra quem viveu muito e sofreu um pouco. Percebeu que a maior parte do que a gente estuda na faculdade é quase nada para melhorar a saúde global da população. Para quem tentou tratar diabetes em um pai de família desempregado cuja pequena felicidade da vida era o bolo com que era recepcionado pela mulher como se fosse um príncipe. 

Allan Kardec, meu mestre de há muito, a sua palavra reverbera neste jovem espírito: "É preciso alguns anos para formar um médico medíocre e uma vida para formar um sábio."

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Palestra para os calouros de medicina 2015.1



Minha esposa disse que fiz um stand-up comedy. Achei que realmente mereciam algo mais ameno depois de ouvir tanto sobre políticas de saúde e educação, currículos de faculdade, sistemas de saúde e desigualdade social. 

Eu me exponho nessa palestra às vezes mais do que deveria. Não tem problema. Se minha carne vai para debaixo da terra, reincorporar-se ao húmus de onde veio, para onde irão minhas histórias? Para o espírito das gentes com quem conversei. Eis aqui uma das formas que tenho de as eternizar. Que sejam úteis para essas crianças que ingressam nesse mar revolto chamado faculdade de medicina. Vai que se transformam em farol ou tábua de flutuação. Já ouvi alguém dizer: "Mas, o Allan passou por isso...". E como fiquei feliz!

De todo modo, é uma história de superação que vale para qualquer um que batalha nesse mundo. Boa escuta! Obrigado por ouvir.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Fui horrível

Disse o estudante fazendo o próprio julgamento sobre sua entrevista com o paciente. Baixou a cabeça, meneou-a negativamente e quando a levantou, bizarro, era minha face em seu rosto. A mesma altura, biotipo, mas imberbe, como eu era à época em que ele agora está.

Sim, eu era horrível. A escrita no prontuário como esconderijo para a ignorância, as perguntas que facilmente se esgotavam sobre a doença que o paciente ali me trazia, os colegas que rapidamente socorriam meu silêncio, e o professor, socorrendo a inabilidade do exame físico.

Por muito tempo havia um sentimento de que era inoportuno para aquelas pessoas que buscavam uma resposta médica, mas que tinham de passar por mim, neófito. Valia-me de alguns assuntos paralelos que me permitiam escapar do assunto que desconhecia. Raros aderiam ao diálogo alternativo. Esperavam (esperávamos) ansiosos o retorno do professor.

E, por muito tempo, em vez de me focar nas explicações que o preceptor dava, tomando aquelas dores como ilustração, pegava-me agradecendo a Deus por aquele sufoco ter acabado, rememorando a vergonha e me questionando o que poderia ter feito melhor.

Isso foi minorando até o internato, quando a quantidade de pacientes do posto de saúde e de conhecimentos internalizados nos quatro anos antecedentes me permitiram um pouco mais de desenvoltura e conversa contextualizada. Foi cada vez mais sumindo quando tive pacientes sob minha responsabilidade diária em um internamento hospitalar, acompanhando desde a internação de uns até a morte de outros, o convencimento de fazer o exame, a gentileza (obrigação informal) de acompanhá-lo, o acaso de ser, no fim das contas, a única pessoa que esteve com ele da admissão à alta, e vê-lo chorar, sorrir, reclamar do sistema. Ouvir.


Depois que me formei e aprendi em três meses de profissão o que seis anos de faculdade não havia tido êxito de me fazer sedimentar no espírito, motivado, então, pelas dores que os pacientes me traziam como sendo o quase único responsável médico no serviço em que estava para saná-las, aprendi a ouvir ainda mais, perguntar o essencial, me valer da ciência dos livros com mais proficiência.

Hoje temos smartphones que nos socorrem nas dúvidas clínicas do cotidiano. Lá, me munia de um palmtop, antigo companheiro, e um grosso livro de atenção primária surrado pelo uso. O que nunca falhou para uma ótima anamnese, para além da técnica, foi o interesse pela história do paciente. Não importa o quão cansado eu estivesse, sempre era recebido com profunda gratidão o esforço de me manter atento para, de alguma forma, entender como a ciência que pesava sobre os meus ombros (que peso!) poderia ajudar o sofrimento que se curvava sobre aquelas mesas de atendimento. 

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Sobre gestações e Como eu adquiri a calma

Perguntei aos meninos e à menina se eles viram que ao redor da paciente que atenderam havia três gestações. A graduanda percebeu. 

Filho, mãe e pai estavam se gestando. O espaço familiar vai se reorganizando para receber a criança. O corpo da mãe e do pai, também. Quando se abraçam, tem mais alguém entre eles, ainda que seja a ideia. Mais tarde ficará evidente e o abraço mais troncho. 

"Tem gente que nasce sem espaço na vida e passa a vida toda sem espaço." - ouvi uma filósofa falar dia desses. Ter um filho não é só deixar um corpo crescer. Há uma proatividade para além do útero. O ser humano precisa disso: de ter seu canto arrumado pelos pais no mundo. Não pomos ovos, mas fazemos ninhos. É bom que se faça. Por isso peço para que acrescentem às perguntas pré-natalinas: "Está falando com ele, já?". As palavras e os silêncios entre elas nos aninham uns aos outros, bem como no mundo. 

Depois que terminamos de atender aquela gestante, uma senhora nos aborda precisando de um remédio que estava melhorando seu transtorno de humor. Uma doença grave lhe consumia. Já possuía diagnóstico, acompanhamento, consulta marcada. Precisava apenas do remédio por agora, e da escuta. Passou alguns minutos contando de novo sua história. Entendi que ela ainda precisava elaborar tudo aquilo por que vinha passando. Que bom que esses jovens começam seus aprendizados vendo exemplos de consulta que não pretendem diagnóstico algum, mas acolhimento. 

A jovem estudante de medicina do grupo me aborda ao final querendo que eu lhe desse a calma com que conduzia os problemas dos pacientes. Era mais ou menos isso que eu queria quando passei a acompanhar, no internato, um dos médicos mais humanitários que já havia conhecido em toda a faculdade. 

Uma madrugada, quase antes de irmos dormir, uma paciente recém-internada espalhava seus gemidos pelos corredores. Esse meu mestre foi lá e tentou ajudá-la com o único analgésico que ela ainda não tinha usado. Porém, percebeu:

-Vê?
- O que, professor?
- Como ela fica mais calma quando estamos presentes?
- De fato.
- Não se preocupe, senhora. Iremos esperar aqui o soro acabar. 

A dor passa. Ela dorme. Tenho quase certeza que, por alguma alquimia, quem escorreu naquele soro para dentro da veia dela havia sido ele. 

Difícil manter aquela grandeza todo o tempo. Falo constantemente do peso da realidade para os alunos. Mas, por agora, o que eu puder deixar escorrer de bom para suas almas...

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Humanização em Saúde

À convite, falei sobre o assunto. 

O que mais temos que derrubar é a fácil confusão que se faz em ser um profissional humano e ser perfeito. O que as políticas de humanização falam é que não devemos negligenciar as várias dimensões do humano, que o acolhimento deve ser uma máxima e a escuta do sujeito uma prerrogativa. 

Vou além e falo o óbvio: ser humano também é se autodestruir e trabalhar pelo extermínio do outro. Óbvio que não é isso que defendo para uma humanização das práticas de saúde, mas é um excelente lugar para se começar a problematizar. 

Pensa-se ser óbvio a definição de ser humano, mas os antigos tinham uma definição (ser racional) que diferia da dos cristãos (ser criado a imagem e semelhança de Deus), diferente, por sua vez, da dos modernos (seres livres), destoante da dos biólogos (ramo da cadeia dos primatas). 

Penso que a principal crítica que devemos guardar em mente é o quanto este sistema de produtividade de saúde em massa, gerador de e gerado por grandes tecnologias, vem nos transformando em máquinas de dar seqüência a protocolos. O que, pela nossa própria condição humana, nos faz facilmente deslizar para o desprezo pelas dimensões mais caras do espírito que é, ao meu ver, a nossa coroa. 

A palestra que dei sobre esse assunto, então, tenta colocar em reflexão esse assunto que por muito tempo vai ser pauta de discussão até que consigamos superar essa dialética que, do ápice do ideal de esclarecimento, nos conduziu às trevas dos piores desvios éticos dos último séculos. A barbárie ainda dorme em nós. Devemos fazer o possível para que ela não volte a acordar. 

Segue o link temporário da palestra: aqui


sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Virando médico

De vez em quando me chamam para dar uma palestra para os recém-ingressos a fim de contar minhas desditas (inúmeras!) na faculdade e dar o ar de minha graça que simboliza a sobrevivência, apesar de tudo. Acho que, se fosse resumir todas as lições em uma frase, diria: vocês precisam viver a dor para saber sobre ela. 

Depois de quase ter desistido da faculdade ao oitavo semestre, entrei no internato e, em pouco tempo, fui ver como funcionava a medicina na zona rural, imediatamente após ter vivido a morte de papai. Fui para uma comunidade no alto da serra. 

Engoli em dois dias o choro do luto. Resolvi em uma semana as pendências de pecúlios e organização de vida burocrática-cidadã para conforto de mamãe e parti. Recepcionado com um jantar por conta da secretaria de saúde, conheci pessoas maravilhosas. Andei pelas ruas frias da noite escondendo a orfandade no peito. Entrei em igrejas, creches e casas abandonadas aproveitadas para ser ambulatório das gentes. Quase não conseguia fixar a atenção nos raciocínios clínicos desenrolados pelos médicos que acompanhava. Mas, lembro muito bem um penhasco de onde dava para ver uma coluna de luz brilhando uma cidade coberta de serras lá embaixo. Desde há muito: mais fruir a beleza que exercer a busca da verdade, mais a arte que a ciência. 

Ao final do estágio, o pulmão me surpreende com a primeira crise de asma longe de papai. Era quem me tratava. Sempre entreguei o mérito do raciocínio clínico para ele. Onde está agora? Aqui, dentro de mim! E fui estudar para aquietar minha crise. Peguei as melhores evidências e teci um plano terapêutico. Deu certo, ufa! 

Havia nascido um médico ali. Sem diploma ainda. O que faltava, parecia, era que a medicina fosse para mim um assunto de "viva ou morra". Parecia, também, que foi preciso que meu pai-médico morresse para que eu-médico pudesse viver. 

Por que é tão difícil a gente crescer sem precisar que outros morram ao nosso redor, hein, Natureza? Que equilíbrio é esse que a senhora teima em manter? Gostaria de estar trocando figurinhas com o velho. Mas, se ele estivesse por aqui, tenho para mim que ainda estaria dando as cartas, o grande Araquém!

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Primeiros contatos com um, dois ou três pacientes

Atenderam pela primeira vez uma pessoa, que não era um programa de computador, nem ator de simulação. Uma pessoa, com suas imprecisões, inquietações e surpresas. 

E como se a vida quisesse se fazer de professora comigo, a uma queixa eminentemente orgânica acrescenta ao corpo consultado uma doença da alma. 

Somos tão naturalmente pendentes para estes assuntos que noventa por cento da entrevista médica do neófito se conduziu para entender melhor esta dor.

Viram ainda uma mãe que estava feliz em ter um bebê dentro de si. Gravem! Nem todas estarão felizes, e não as poderemos julgar por isso. Mas, gravem a felicidade de gerar. A mulher se sente natureza, eu acho. E isso é um sentimento que a transcende. Ela é mais que si.

A primeira vez que escutei a batida de um coração acelerado envolto pelas tranqüilas artérias da mãe, aquele poema de Cecília ganhou novo verso para mim: O bebê não!

O bebê é a negação da mãe. São nove meses de ativa espera, de consecutivas surpresas. De alguma coisa crescendo dentro dela e dizendo: eu não sou você. E ele a desordena, a bagunça, a adoece. O mais lógico seria que ela o rejeitasse. Mas, o mais natural é aceitá-lo, acolhê-lo, em uma palavra, útero. Como somos mulheres e homens de cultura, é comum que a natureza não seja nosso código, e, querendo desobecê-la, seja nossa lógica rejeitar o que ela concebe. É porque inventamos também a solidão, o ódio, o estupro. E nisso somos humanos. 

Mas, gravem! Aquela mãe sorriu quando eu perguntei sobre o bebê. Nesse início de tudo, seria a única matéria que eu pediria para decorarem. A matéria: o sorriso.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Os milagres da medicina

Você deve pensar que devo estar falando da penicilina ou do stent ou da embolização de artérias. O quanto essas três revoluções da medicina moderna salvaram milhões de vidas. 

Não.

O que eu estava ontem discutindo com os internos é que o grande milagre da medicina é qualquer coisa dar certo. Qualquer uma! Nós, médicos, nos fiamos em pesquisas para dizer que esta ou aquela terapêutica pode servir para este paciente singular que está na minha frente. E vamos levando essa verdade como óbvia até que a resposta do paciente fuja do padrão que esperávamos. Ficamos nervosos e então perguntamos: "O que deu errado?"

Dizia que essa admiração nunca deveria acontecer, mas o seu contrário. Quando um simples paracetamol fizer o efeito que almejamos em duas pessoas diferentes, deveríamos corar a face, deixar palpitar o coração, liberar a lágrima escondida no canto do olho e dizer calado, com os dentes cerrados feito uma oração interna: "milagre".

As pessoas são tão radicalmente diferentes (vide as brigas de casais), e as pesquisas que nos norteiam são feitas com uma população e em condições tão específicas para evitar os tais vieses que a efetividade da intervenção no nosso contexto não deveria ter outra reação.

Daí a defesa da radical necessidade de acompanhar o paciente sobre o qual ofertamos qualquer medicamento se quisermos realmente aprender medicina. É a dádiva que o hospital nos proporciona, mas que subaproveitamos quando estamos na comunidade. Em grande parte por causa de uma política e uma mentalidade que acreditam serem as prescrições endossadas por uma tecnociência mágica que dispensa qualquer tira-teima.

Fica o desafio da pergunta de sempre: "Doutor, vai dar certo?"

O que devemos responder?

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Notas e um poema qualquer

Hoje tivemos uma reunião geral dando boas-vindas aos novos professores, nos apadrinhando e, por fim, falando sobre um certo Teste de Progresso dos estudantes. 

O tal Teste de Progresso tem o objetivo de mensurar a qualidade da grade curricular e do projeto pedagógico da instituição. Almeja-se que, futuramente, todas as escolas médicas do Brasil sejam submetidas a esta avaliação a fim de que o aluno possa ver como está o seu próprio desempenho em relação a si, em relação aos outros colegas da mesma instituição e das instituições vizinhas, e que as instituições possam se comparar. O objetivo é que se tenha parâmetros para avaliar se a instituição cumpre o objetivo de formar médicos com as habilidades necessárias para atender a população. 

Houve quem perguntasse sobre se isso influenciava a entrada na residência médica ou se haveria uma forma de mensurar o quanto a faculdade estava preparando o aluno para entrar lá. Outros professores questionaram o posicionamento da faculdade em dar, como recompensa, meio ponto na média final do semestre, pelo simples fato de o aluno se submeter à prova, independente de seu desempenho na mesma, pois isso fazia com que medíocres passassem adiante. 

As falas sobre a mediocridade discente, a gana pela residência e as comparações entre os pares me levaram para aquele passado da minha miséria, do crônico desânimo e incomparável insucesso entre os colegas. 

Fui criado em meio a muita espiritualidade. A educação que me deram tornou-me um grande idealista e metafísico. Ao ir para a escola me acostumei a fazer os deveres, mas os domingos é que deram os fundamentos para o sentido da minha existência. Vivi-os junto à religião. Durante anos me foi passado uma forma de ver o mundo em que o espírito das coisas era o que mais importava. Isso me fez ingressar na faculdade sequioso para ver o espírito das pessoas. Deparei-me com corpos mortos, formolizados, dissecados, amputados, tecidos recortados, microtomizados aderidos a lâminas de microscópios.

Os companheiros corriam atrás de tudo. Eu corria de tudo aquilo. O corpo presente, a alma distante. O cansaço constante parecia ser a reclamação do corpo que caminhava sem alma. Em todos os lugares, ligas de estudo para setores pormenorizados da máquina humana, projetos de extensão sobre as mais diversas áreas da medicina, laboratórios de pesquisa renomados disponibilizando vagas. Eu parava em frente aos ratinhos e contemplava seus cárceres. Olhava os dedicados pesquisadores passando pelos corredores levando-os para mais uma injeção, desafio ou sacrifício. 

Juro que tentei estudar. Coloquei os pés em água gelada, curvei a cabeça insone sobre as páginas dos tratados, forcei os olhos abertos na biblioteca, apesar do estômago cheio. O que havia com aqueles meninos e meninas que perambulavam por ali que não estavam de luto junto comigo? Por que a vida deles continuou como se nada tivesse acontecido?

Acho que o modelo explicativo estava nos que queriam ser neurocirurgiões. O currículo tinha que ser muito bom, com vários artigos publicados, trabalhos apresentados em congressos, participação em iniciação à docência e iniciação científica, a melhor classificação nas provas de seleção. Não mudou muito do ritmo de vestibular. Mas, depois de todo o esforço que fiz para passar de primeira vez na faculdade*, acho que quebrei. 

Era isso, quebrei. Isso me define bem. Eu era um aluno quebrado. Eu e Cecília:


"É triste ver-se o homem por dentro:
Tudo arrumado, cerrado, dobrado
Como objetos num armário.

A alma, não.

É triste ver-se o mapa das veias
E esse pequeno mar que faz trabalhar seus rios
Como por obscuras aldeias
Indo e vindo, carregando vida, estranhos escravos.

Mas a alma?

É triste ver-se a elétrica floresta
dos nervos: para a estrela dos olhos e lágrimas,
Para a inquieta brisa da voz,

Para os contorcidos ninhos do pensamento.


E a alma?

É triste ver-se que de repente se imobiliza
Esse sistema de enigmas,
De inexplicado exercício,
Antes de termos encontrado a alma.

Pela alma choramos.
Procuramos a alma. 
Queríamos alma."    


Eu e Cecília Meireles. Um poema lido no momento do intervalo entre o tópico da glomerulonefrite por depósitos de IgA e uma outra glomerulonefrite lá.

*Algo muito importante que não podia deixar de comentar sobre minha rachadura tardia. Passei três anos mergulhado em estudo insano para passar no vestibular. No segundo destes anos, vovó morre lá em casa, de câncer de pulmão. Tossia enquanto alucinava com crianças que invadiam nossa casa para lhe tirar a dor. Eu estudava ao seu lado, porque me sentia profundamente ruim por ela estar ali e eu não estar ao lado dela o tempo inteiro, ao mesmo tempo que me sentia muito culpado por não estar com ela por inteiro, mesmo estando ali ao lado, porque precisava estudar. Puxa de um lado, puxa de outro: a gente quebra mesmo e não se dá conta. 

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Acordando a agenda

Esse é o momento mais difícil para um médico de família na preliminar do seu trabalho no centro de saúde. Como chegamos verde nessa prática ao sair da faculdade, não entendemos que a nossa vida vai depender dessa etapa, e o "o que você achar melhor" direcionado ao coordenador da unidade pode significar o seu esgotamento em pouco tempo. 

No meu caso, não serei o médico de nenhuma equipe nem mesmo poderei ser considerado o médico daquele centro de saúde, porque sou apenas um professor cedido pela faculdade a fim de otimizar o aprendizado prático dos internos. 

Queriam me colocar para fazer visitas domiciliares, mas não havia carro disponível pela prefeitura. E o horário em que estamos no pingo do meio-dia nos impossibilita de deixar essa atividade algo sistemático. Pensamos em procedimentos que poderiam ser realizados na atenção primária, como lavagem auricular, pequenas suturas, drenagem de abscesso, retirada de nevos, curativos especiais. Todavia, ainda não tínhamos material para montar a sala, e as nossas atividades estão para começar. Pensei então em discussão de casos icônicos, aqueles que fazem o grosso do que atendemos, mas de uma forma que investisse no vínculo e no cuidado com o desfecho da demanda gerada. Explico. 

O que acontece na maior parte do nosso aprendizado é a resolução de uma queixa pontual, cuja resolução gira em torno de aplicar o conhecimento livresco sobre a realidade do problema que se nos aparece. O hospital prepondera como lugar privilegiado de aprendizado, nesse sentido, porque o graduando tem a oportunidade de acompanhar a melhora do paciente desde o momento da admissão até a alta ou a morte. Contudo, ainda nesse espaço, poucas vezes atentamos para o poder do vínculo, do cuidado, da insistência dos reencontros cotidianos, submersos que estamos ao olhar sobre a mudança do corpo com a terapêutica ou contra ela. 

O que eu pretendia com a última sugestão era que, nas nossas práticas de ambulatório, pelo menos ascendêssemos a esse olhar que vai para além do primeiro contato. Uma coisa é ver o paciente, seu corpo doente, dócil a disciplina hospitalar, outra, era ver o conflito entre as mais diversas forças da vida do indivíduo (cuidar de filhos, do trabalho, do prazer) em colisão com essa força a mais: a da terapêutica médica. Daí surgem novos problemas como a falta de adesão à nossa prescrição (por causa dos efeitos colaterias ou em virtude de outras prioridades bem na hora da tomada do remédio, etc.), ou a falta de efeito da medicação. Saber o que aconteceu com ele, ter um tempo para ver o ambiente em que está tentando se curar, os relacionamentos pessoais que facilitam ou dificultam o processo, que o causam ou o sanam, como o "filho que me adoece" ou "que é minha benção".  

Geralmente ficamos no nível do texto da morbidade. É o que apenas um encontro intenta. A longitudinalidade da presença na vida do paciente permite-nos acessar o contexto, as entrelinhas, as ironias, as metáforas, as poesias, os silêncios. É o que o exercício da medicina na família e na comunidade proporciona, o que a torna não-centífica em absoluto, mas uma práxis do cuidado com o outro, e o que os gestores não gostam de permitir, porque diminui o número de atendimentos.  

A comunidade está fora de controle

Falando sobre a experiência que tiveram à comunidade com idosos, lamentavam porque a maioria não acedia ao convite da faculdade para que fossem ter momentos médicos juntos aos estudantes e professores. Tinham que ficar em busca de sexagenários para conversar no meio da rua, o que desagradou aos graduandos, passando a ideia de uma cadeira desorganizada. Junto à instituição de longa permanência é mais fácil o controle. 

É assim que todos nós, médicos, somos criados. Mesmo quando a atividade é na comunidade, busca-se o controle das pessoas. Bacon é que dizia que a atividade humana, em nosso século de Luzes, deveria se erguer ao ponto de estarmos "como mestre e senhor da natureza". Porque é contra ela que nos insurgimos. A pior das inimigas, a consideramos desde então. Vão atrás da repercussão que o terremoto de Lisboa de 1755 provocou nas mentes da época. A natureza: a inimiga. As luzes, nossa salvação, contra a superstição, contra o animismo, que considerava a natureza dotada de um mistério que nos subjugava, a quem deveríamos senão venerar, pelo menos temer. Contra o temor, o destemor de a enfrentar. 

Na medicina isso vai se refletir no enfrentamento da doença de forma sistemática, disciplinar. As bactérias são descobertas e o mundo entra em crise: dez por cento do nosso peso corpóreo são elas. Temos uma armadura de morte. Qualquer ferimento pode significar a derrota da vida humana. Surgem as vacinas, a penicilina. Os hospitais deixam de ser asilos para morrer e passam a ser castelos para curar, cheios de cavaleiros armados contra o sopro do dragão. Surge, enfim, a ciência vitoriosa. 

Todavia, era preciso disciplinar o olhar médico que, jogado sobre a natureza como rede de pescar, diagnosticaria o mal a fim de o sanar. Tanto melhor se a natureza ficasse quieta, amordaçada em laboratório ou em leitos hospitalares, enquanto olhássemos para ela. Para a doença tida como invasões bárbaras nada melhor que vestir o hábito de império romano. 

Esse retrospecto é desde o século XVIII*. Somos ensinados a tratar assim a doença desde lá. O que há de humano em nosso corpo é considerado uma variável espúria, que deve ser colocada em suspensão a fim de não atrapalhar o nosso estudo. Entendo que seja por isso que quando vamos à comunidade ela é tão arredia ao nosso olhar clínico, ao nosso convite de se submeter à norma médica, à entrevista,  ao exame  físico, quando ela está em equilíbrio com a natureza, com suas bactérias. "O que estes médicos querem comigo se eu não tenho nada?". Nada que nos interesse conhecer, de fato. 

Uma idosa saudável no meio da comunidade (penso aqui em minha avó) só tem a nos ensinar: a cuidar dos filhos e dos netos, a fazer tapioca, a andar com artrite como quem não tivesse, a rezar o terço, a cuidar da casa como se não houvesse filhas para ajudar, a partilhar o dia com a vizinha, pagar as contas, fazer as compras, assistir novela. Falar sobre seus guris! Isso não é coisa para médico. Graças a Deus, está fora do nosso controle. 

* Em verdade Aristóteles (384 - 322 a.C) já ensinava a busca pela essência (ousia) das coisas em detrimento dos acidentes de sua forma, aquilo que é mutável. "Sócrates é humano" e "calvo". E daí que seja calvo? Sua humanidade é essencial. Mas, o fato de ser humano é o que mais lhe torna um ser acidental! É o que nossa filosofia vai descobrir na pós-modernidade, e o que ainda não aceitamos na medicina.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Trabalhando em grupo

Fizemos hoje um trabalho grupal. Pesquisa primeiro e apresentação em seguida. 

Nunca me dei bem com trabalhos em grupo. Ficava sempre com os escorões, o que facilitava o processo: eu fazia a maior parte do trabalho e distribuía as funções. 

Trabalhar em grupo requer um pouco de abdicação de si para que o outro possa entrar na sua forma de existir e de resolver os problemas. Em uma sociedade que se guia por objetivos de produtividade, como são as escolas, fazer acordos de convivência deve ser uma atividade rápida. Não é de se admirar que escolhamos os nossos afins. A amizade promove uma parceria mais duradoura, cujos vínculos são mais remotos, mais profundos que a norma. 

No começo da faculdade, os professores sempre reservavam um tempo para o trabalho grupal, mas eu não estava mais entre escorões. Eram líderes de classificação que me circundavam, das mais diferentes escolas. Acho que foi isso que me deslocou. De alguma forma comecei a flutuar nas discussões. As tarefas escorregavam pelas mãos. Os olhos não se fixavam nas tentativas de consenso. 

Ainda tinha poucos amigos, também. Três ou quatro pessoas que conhecia do ensino médio e com quem ainda não tinha tido maior contato. Foram esses que me ampararam. Porque a norma pedia que fossem formados grupos, e a amizade abriu o coração para que ele se perpetuasse, até o fim, por todo o dia, para além da faculdade, portanto, para além da própria norma. 

Diz Sponville: "Para que falar de moral, se não faltasse amor?". Nesse contexto: Para que falar de obrigação (tarefa, dever), se não faltasse amor? Amor pelos estudos: professor nenhum precisaria falar que "cai na prova". Amor pelos companheiros de jornada: não precisaria ordenar que se separassem em grupos, já o fizemos. Foram eles que me acobertaram quando eu não havia preparado nada, e foi quem sentou comigo quando não conseguia estudar. 

O espírito mergulhava em um mundo novo: sem a pressão de dar resposta a uma mensalidade (universidade pública), sem boletim para mostrar aos pais, com uma vida completamente imersa em outra esfera. Saí, enfim, de casa e estava para me tornar cidadão do mundo. 

Com essas pessoas aprendi tanto a ser um feixe que hoje componho músicas com um deles. Mando a letra, ele logo me responde com a melodia. Muda, então, a letra, uma mudança que eu já previa. E feito um sinfonia, a amizade segue sua doce monarquia - ela só, suficiente, e vitalícia.